O COQUETEL

 – Santo Deus.

Foi essa a reação do juiz promovido a ao cargo de membro de um Tribunal quando soube que não estavam caçoando dele ao lhe recomendarem oferecer um coquetel de pelos menos dois mil reais, às autoridades e convidados que fossem comparecer a sua posse.

– Isso tudo?

 – Sim, é da tradição da Corte – respondeu seu futuro assessor (Os assessores não se referiam ao tribunal pelo seu nome e sim como Corte), expressão que não passou despercebida pelo juiz, que pensou, menos mal, pelo menos não falou Areópago.

 – Mas porque tão caro, afinal é uma posse corriqueira, ponderou. Nem haveria necessidade de solenidade, é uma função transitória, ponderou.

–  Ah, respondeu o assessor, mas é na transitoriedade que reside a munificência.

 – O quê?

 – É, doutor, é nesse estado em que a generosidade deve se exibir, não esqueça Vossa Excelência que o senhor  não foi promovido, foi indicado, eleito, é um ato de reconhecimento meritório.

 – Reconhecimento coisa nenhuma, indignou-se o juiz, sou o mais antigo, mais velho, mais escolado e ainda tive uma enfiada de votos contra. E agora vou ter que dar camarão pistola pra essa turma? Só se a eleição tivesse sido aberta, aí sim, mas desse jeito, dá toda a pinta de que estou pagando promessa. É o fim.

 O assessor constrangeu-se, e o juiz, percebendo, emendou – não é contigo, relaxa, é que esses salamaleques não servem pra nada. Sabe o que esse negócio parece, um concurso de gastronomia financeira, só pra ver quem oferece o coquetel mais sofisticado e mais oneroso. Depois, ficam falando, a a recepção do dr. Fulano foi maravilhosa, virou referência e passa a ser o leading case do tribunal. Sou capaz de apostar que na primeira posse o indicado ofereceu bolacha Maria e café preto. Vem cá, meu jovem, não dá pra dar um reforço naquele lanchinho que a gente recebe todo dia de sessão?

 – O servidor pigarreou e arriscou: Vossa Excelência quer saber se a Corte custearia?

 – Não, meu filho. Eu pago, mas acrescentando aí uns 200 contos eu faço uma festa, o pessoal vai comer tanta coxinha de galinha que também o caso entrará para os anais, aliás, os anais vão mesmo é expelir tudo, se é que você deu pela coisa. Essa turma é do faz de conta, em casa vão de macarrão com ovo e com o dinheiro dos outros é canapé e caviar. Ninguém resiste a uma bela coxinha de galinha, crocante, com aquela farinha de rosca douradinha, e se tiver um catupiry, então, é só despachar com uma coca com bastante gás.

– Aí, o assessor sorriu e respondeu: Vossa Excelência tem razão – no caso da coxinha, também sou chegado, é claro – mas eu arrisco orientá-lo a oferecer algo mais caro. Caro, entendeu, doutor? Pode ser muito ruim até, mas tem que ser caro, os salgadinhos tem que que ter boa extração, é uma forma de reconhecer o prestígio da Corte e mostra apreço pelos seus membros.

– Essa é boa, então a coisa funciona à la Sarney, que uma vez em Nova Iorque foi comer num restaurante esnobe e caríssimo e famoso pela má qualidade do cardápio e pensou consigo mesmo: “Eu sou uma besta, estou aqui pagando os olhos da cara por essa comida e estou achando uma verdadeira porcaria”?

– Acho que o senhor colocou muito bem a questão, respondeu o assessor. Nessa ocasião, o que está em jogo é o simbolismo da confraternização entre os melhores da sociedade.

     O magistrado ficou pensativo, não freqüentava festas e solenidades oficiais e agora vinham com essa. Onde é que já se viu, pensava,  não era Páscoa nem Natal ou Ano-Novo, tinha chegado ali aos trancos e barrancos para um pequeno período. Só podia significar uma coisa, ele insistia: eu sou anti-social, um desastre, não sei me promover, tudo é no ferro e fogo, por isso é que cheguei penando, só antiguidade, antiguidade e antiguidade, nada de merecimento. Minha mulher teria razão, então? Relaxa, homem, participa, te entrosa, entra na dança, verás que tudo fica mais fácil. E eu negando, tens a tua opinião e eu a minha! E agora estou aqui me remoendo por causa de uma porcaria de um coquetel. Sabe de uma coisa? Vou fazer essa merda e pronto. Pronto!, já tirei da cabeça. Já foi. Meu jovem!

            – Pois não doutor.

            – Quem é que ajeita esse negócio de coquetel?

            – O senhor pode deixar que o cerimonial cuida de tudo. Depois o senhor só deixa o cheque. Só precisamos saber o número de convidados?

            – Convidados? – perguntou o juiz – eu só convidei umas 10 pessoas.

            – Mas tem todos os membros da Corte, os titulares e substitutos, as autoridades obrigatórias, o pessoal da presidência e secretaria geral e ainda os assessores. Creio que umas 40 a 50 pessoas.

            – Está bem – disse o juiz – que seja, cuide de tudo e depois me  passe a conta.

            Uma semana depois ocorreu a solenidade, com os discursos e hinos de praxe e uma platéia de umas 30 pessoas. O cerimonial anunciou que o magistrado empossado iria oferecer um coquetel no ático. Coquetel no ático? Pensou o juiz, esses caras são demais. Lá, o público presente ficou aquém do esperado, como ele próprio esperava e o juiz achou que, para um coquetel, estava mais do que mixuruca. Era mais uma prova de desprestígio. Salvaram-se os salgados e doces, que o empossado lamentou não poder levar para casa, pois, como era de esperar a Corte não acharia isso de bom tom.

            Tempos depois o emburrado magistrado participou de outra cerimônia de posse e teve o gosto de se sentir vingado, já que, como ele não quebrou a jurisprudência da Corte, seu novo colega gastou o dobro do que ele com o seu próprio coquetel, alçando o rega-bofe a um novo patamar.