O CONTÍNUO

 

     Esta história se passou num tempo em que o país não tinha bruxas, e certamente se alguém viesse falar em uma festa de Halloween naqueles tempos seria chamado de idiota – isso se alguém conhecesse o significado da palavra – pois ninguém seria bobo de fazer uma festa para bruxas num país onde só havia bois-tatás, mulas-sem-cabeça, saci-pererê, curupira e lobisomens. Por isso, foi com grande surpresa que Jorge, o contínuo, certo dia em que se encontrava descansando na sua cadeira junto à copa improvisada num canto da repartição, depois de uma longa caminhada pela cidade, escutou alguém perguntar se a divisão não possuía um office-boy.

     O Jorge já passava dos cinquenta  mas preservava uma disposição juvenil. Magro, baixo, cabelos negros com brilhantina, usava o uniforme da repartição, uma calça azul escuro e uma camisa branca de mangas curtas abotoada até o pescoço. Na mão, levava uma pesada pasta com uma única fechadura presa à aba, que se dobrava sobre a parte de cima e encaixava numa alça lateral, era mo modelo-padrão dos contínuos. Jarbas era o contínuo do departamento jurídico. Como todo contínuo, estava sempre realizando as mais diversas tarefas: levava e buscava correspondência, processos, fazia os serviços bancários e toda a atividade externa, além de operar a máquina de fotocópias, efetuava pequenos reparos e, e claro, dava muitos recados e fazia a fezinha no bicho pro pessoal. Era um mistério se Jorge era contínuo porque tinha um metabolismo rápido e a capacidade de movimentar-se incessantemente, ou se aceitou o cargo por falta de opções e desenvolveu essas características com o tempo.  O fato é que nunca se conheceu um contínuo que não fosse bem disposto e ágil, porque isso seria a negação mesma do significado do nome do seu cargo.

     Jorge era do tempo em que os estrangeirismos pagavam caro para adentrar no nosso vernáculo, não era como hoje, em que são convidados a entrar, não só como estrangeirismos mas como eventos e celebrações, mas disso ainda nem se cogitava naqueles tempos. Por isso, ele não entendeu nada e prestou atenção na figura que falava, era um desconhecido que se dirigia à dona Sulamita, a da máquina Underwood legítima, aquela belezura única da repartição, que todos disputavam o direito de uso futuro quando a sua usuária viesse a aposentar-se, e enquanto isso, tinham que contentar-se com as Olivetti de plástico e Remington desalinhadas. Dona Sula, apesar de ser a mais antiga funcionária da seção, também não sabia o que era um office-boy e  respondeu a seu interlocutor, um colega procurador de São Paulo que estava em viagem de serviço, mirando-o por cima dos óculos:

– Office-boy? Não sei se temos, vai ver que sim, pois as licitações da Procuradoria são nacionais, mas com esse nome não conheço. É um novo tipo de telex de uso múltiplo?

– Não, não – respondeu o procurador paulista, fazendo um gesto complacente com a mão – office-boy é o que antigamente se chamava de contínuo.

     Dona Sula pensou um pouco, procurou assimilar e respondeu:

– Ah, o contínuo, agora sim, claro que temos, o seu Jorge é nosso contínuo há muitos anos e esperamos que continue, como é costume dos contínuos. Mas porque vocês não usam a denominação oficial do cargo e sim office-boy, há alguma diferença?

     O procurador paulista riu:

– Não, minha colega, não há, é que em São Paulo todos os contínuos já são conhecidos por office-boy, vai ver por causa do cosmopolitismo da cidade…

– Mas eles são contínuos então, fazem a mesma coisa, não captei, acho que minha antena está enferrujada – replicou dona Sula, que o procurador não sabia, gostava de uma teimosia.

– Sim – respondeu o procurador paulista – não deixam de ser, mas um boy…

     Dona Sula interrompeu o procurador paulista:

– Deixa ver se entendi: um contínuo tem esse nome porque ele está sempre em contínuo movimento, realizando todo o tipo de tarefas de escritório, internas e externas que lhe pedem para fazer, inclusive realizar favores aos funcionários no horário do expediente… Quer dizer, é um sujeito sem sossego.

– Exatamente, dona Sula – respondeu o procurador paulista – podemos dizer que ele vive num contínuo.

  – Continuum, o senhor quer dizer – corrigiu dona Sula – e se ele vive num continuum, que o senhor mesmo diz que é um “contínuo”, então temos que admitir que nosso servidor é um contínuo e não um office-boy.

– É que hoje essas tarefas são delegadas a pessoas que estão começando na vida, jovens – retrucou o procurador, já arrependido de ter se envolvido naquele tipo de discussão.

– E o que acontece quando um office-boy envelhece, ele vira contínuo, de tanto continuar? – provocou ela.

     Seu Jorge, até então sentado no seu canto e desejando bisbilhotar um pouco sobre um assunto que lhe dizia tanto respeito, aproximou-se dos dois, com sua pesada pasta, e avisou que ia sair para uma nova rodada de serviço externo e queria saber se dona Sula desejava alguma coisa.

– Ora, quem está aqui! – disse ela, dirigindo-se ao procurador paulista – este é nosso contínuo. Jorge, este é um procurador paulista que está nos visitando e dizendo que lá em São Paulo você é conhecido como office-boy.

     Ambos se cumprimentaram e Jorge respondeu:

– Não pode ser, dona Sula, nunca fui a São Paulo.

– Jorge, quantos anos você tem de serviço? – indagou ela.

– Faço 29 o mês que vem.

– Então você começou um boy, podemos dizer.

– Não, sempre fui contínuo desde que fiz o concurso. Não estou entendendo o que o senhor procurador paulista está dizendo.

     O procurador explicou que era a mesma coisa, era só uma atualização do nome.

– Não pode ser uma coisa dessas, o senhor me desculpe, se é a mesma coisa, não faz sentido mudar o nome – disse Jorge.  É como aquele sujeito do programa do Flávio Cavalcanti que quer mudar o nome do futebol para ludopédio.

– Bem lembrado, meu caro contínuo – retrucou o procurador paulista, vendo a oportunidade de trazer um bom argumento – o senhor sabe que futebol vem do inglês football, ou seja, as palavras pé e bola.

– É verdade, é verdade, o Rui Porto diz isso – atalhou seu Jorge – mas, se não me engano, foram eles que inventaram o nome do jogo e quem inventa coloca o nome que quiser, é diferente. Isso aqui é uma repartição pública, existe faz 500 anos, já veio montadinha de caravela de Portugal e o contínuo já chegou na frente, distribuindo a papelada, muito antes dos gringos inventarem esse nome deles. Por acaso os gringos adotaram o nosso nome?

     O procurador já tinha pressa em sair, mas não podia ser colocado contra a parede por um boy e procurou contestar:

    – A lógica não é essa. Eles não copiam nossas palavras. É difícil para eles.

   – Difícil é um japonês dizer Brasil, para eles deram um jeito, não é mesmo? Barujiru – arrematou dona Sula.

  – Sabe, dona Sula, se mudarem o nome do meu cargo para office-boy, vou me sentir uma cafeteira. Eu sou gente, corro pra lá e pra cá, pulo ligeiro na calçada pra não ser atropelado e ainda pisco um olho pra senhora que ficou espantada com o meu atrevimento.

      O procurador paulista, mesmo sem graça, riu e decidiu encerrar a conversa;

  – Bem, colega, já estou com a cópia do processo. Que tal esquecermos essa discussão e solicitar ao nosso caro contínuo aqui que me faça o favor de chamar um táxi?

   – Aí o procurador vai me desculpar – retrucou o contínuo – essa já é uma função de porteiro dos auditórios e não temos esse cargo no nosso quadro.