O CONSELHEIRO E SUA MEDALHA

Todo mundo tem as suas idiossincrasias e o doutor M. tinha as suas, uma delas era a aversão a cerimônias e medalhas. Não gosto, nunca gostei e não vou gostar, costumava dizer (é essa repetição que faz uma bela idiossincrasia). Tinha a sua própria opinião sobre a coisa, mas não gostava de falar nesse assunto em público. Certo dia, estava o doutor M. lendo um jornal de São Paulo, quando topou com uma fotografia de um conselheiro do Tribunal de Contas  suspeito de desviar dinheiro público. Não se interessou pelo caso tanto quanto pela fotografia. O cidadão aparecia sentado em uma cadeira preta de espaldar alto, atrás de um microfone e usava uma toga preta fechada até o pescoço, onde havia um acabamento circular delicado de renda branca. No meio de toda aquela negrura, parecia que a cabeça dele estava sendo servida em uma bandeja. Mas, cada um usa a toga que quiser, embora, pensava o doutor M., embora achasse que o ideal é que fosse discreta, confortável e sem adereços.

Encrencou foi com um colar que o conselheiro usava, uma peça toda intrincada e cheia de símbolos e cores e engates, que era puxado para baixo por uma vistosa medalha, coisa de meter medo. Fechava o composé uma comenda colocada no lado esquerdo do peito, dourada e do tamanho de um ovo frito. O significado de tudo aquilo era um negócio complexo, e o doutor M. estava convencido de que era uma espécie de jogo infantil, reproduzido por adultos que não tinham mais o que fazer. Mas, naquele dia, estava com seu silencioso bom humor e mostrou a foto à sua mulher, que foi incisiva:

– Pra mim é coisa de bicha!

– Calma, amor – contemporizou o doutor M. – que um dia ainda vão me dar uma dessas.

– Credo – retrucou ela – se chegares em casa com um troço desses, já jogo direto na frigideira.

– Também não é assim – protestou – e se o homem fez jus?

– Jus? Belo jus – respondeu – tanto que é suspeito de desviar um milhão. Pra mim ele está usando esses penduricalhos como se fossem salva-vidas. Aposto que tem uma coleção na penteadeira dele. E me admira, tu, que não gostas de medalhas.

– Medalha é uma coisa, isso daqui é especial. Decerto, não dão prá qualquer um, respondeu ele.

– E se por acaso te oferecerem uma dessas, vais aceitar? – perguntou inquisitiva a mulher, mexendo nas louças.

– Olha, querida, medalha não aceito, mas uma comenda dessas, trabalhada à mão, é outra coisa.

– Ah, pára com isso, fala sério – disse a mulher.

– E por acaso eu estou rindo?

– Não acredito que estás me dizendo isso. Sempre falaste o contrário e agora me sais com essa. Era só o que me faltava – protestou a mulher.

– Mas, querida, tu tens alguma coisa contra?

– Eu, não, tu fazes o que quiseres, mas não suporto essas indecisões tuas. Tu és uma metamorfose ambulante. Uma hora é uma coisa, outra hora é outra – ofendia-se a mulher – Pega as medalhas que tu quiseres.  Pega, mas não me vem mais com esse assunto. Eu nem reparava nessas coisas, e se reparava, achava bonito, Foste tu que me vieste envenenar o espírito e agora queres sair por aí que nem um general.

– Tá, meu bem, não precisa se alterar assim – admitiu o doutor M. –  mas uma comenda dessas faz a gente balançar … não queres me fazer um cafezinho?

– Sem açúcar?

– Sim, querida.

  Pouco depois, ela voltou com o café, colocou na mesinha ao lado, olhou novamente a foto e perguntou:

– Será que é de ouro?

– É semi-jóia.