O AMADO MAGISTRADO

     Um colega meu, há muitos anos, quando lotado numa comarca do interior, foi visitado já tarde da noite, pela mulher de seu escrivão, que se queixou que o marido era alcoólatra e não saía da zona de meretrício, onde se encontrava naquele momento. Que era alcoólatra, o juiz já sabia, mas desconhecia as estripulias noturnas do serventuário. A fim de aliviar a angústia da mulher e dar um corretivo no escrivão, chamou a polícia para acompanhá-lo numa batida no lugar. Lá chegando, deu com o conhecido ambiente decrépito de zona de beira de estrada, um salão iluminado por lâmpadas vermelhas, música alta e poucos frequentadores. Abancou-se e mandou vasculhar os quartinhos individuais que havia nos fundos para os encontros com as moças. Depois de algumas diligências, a polícia encontrou o escrivão, embriagado, dentro de uma delas e avisou o juiz.

   Como se sabe, quando a polícia vai a esses lugares, adota uma rotina padrão exagerada, que consiste em colocar todo mundo contra a parede com braços e pernas afastados, como se fossem lagartixas e passa a revista. Assim foi no caso em questão.

    Então, lá estava o serventuário da justiça, colado na parede e vigiado, aguardando a chegada do juiz, que ele não suspeitava que estivesse por ali. Quando meu colega entrou no quarto, o escrivão reconheceu-lhe a voz, virou a cabeça e gemeu aliviado: “Ai, amado magistrado, és o meu salvador.”

    Fim da história.

    Fim da história.