O SUMIÇO DA CALÇA SOCIAL DO PRESO

Estado de Santa Catarina

Poder Judiciário

Comarca da Capital

Direção do Foro

Vistos, etc.:

 

          Chega a nosso conhecimento, através do oficio 023050001-7929-000-013, originário da vara do júri desta capital, que uma calça desapareceu das dependências do bunker onde se situam as salas contíguas ao salão do júri. Essa calça destinava-se a servir como reserva para os presos que comparecessem trajando o uniforme da prisão e pudessem assim, apresentar-se menos estigmatizados aos olhos desconfiados e curiosos dos jurados. Segundo nos relata a comunicação, a calça encontrava-se sobre uma mesinha e quando foi procurada para ser entregue a um preso indevidamente trajado, deu-se pelo seu sumiço. Solicita-se providências, não expressamente, é certo, mas a notícia nos obriga a fazer girar a roda da Justiça. Infelizmente, não foram fornecidas informações importantes para a busca da referida peça de vestuário, tais como a sua origem – a quem pertenceu originariamente – pois será importante ouvir o ex-proprietário, ou a família do morto, como costuma ser nesses casos, se houve uma doação formal ou foi dação informal. Aspecto importantíssimo esse, pois no primeiro caso, deve haver um termo próprio no registro da secretaria do foro e a comunicação ao setor de patrimônio do tribunal, onde certamente recebeu um número de tombamento e possivelmente um adesivo ou plaqueta lhe foi atachada,  o que facilitará em muito a sua identificação. Aliás, pensando bem, o mesmo zelo também é deferido à calça que foi simplesmente trazida de casa por um popular de bom coração e deixada na portaria, que a Justiça não está aí para dar tratamento diferente a casos iguais. Se houve compra, por certo deflagrou-se o certame licitatório sumário, possivelmente a compra direta e o processo deve se encontrar no já citado Departamento de Patrimônio desta Casa, sendo necessário buscar essas informações indispensáveis. Por ora, portanto,  não sabemos a marca, a cor, o tamanho, o estado e isso não é nada bom, nada bom mesmo, evidencia descontrole administrativo. Seria prudente indagar ao magistrado titular da vara do júri se alguma vez houve filmagens da referida peça, sobre ou fora do corpo do  acusado, o que facilitaria  bastante poderiam ser espalhados cartazes em todos os andares e salas do edifício, caso, tratando-se de furto, o seu autor resolva dar um passeio pelos corredores do Fórum. Caso positivo, em obediência aos preceitos constitucionais do direito de imagem, o rosto do acusado usando a vestimenta talar, se assim posso me expressar,  deverá ser rasurado nas fotografias, nem é preciso recomendar. Até que se resolva esse lamentável incidente, tomo a iniciativa de determinar a compra não de uma, mas de três calças para serem utilizadas com aquele propósito, devendo uma ser do tamanho pequeno, outra do médio e uma tamanho grande, a fim de evitar que o acusado pareça risível ou ameaçador, conforme o descompasso entre o número do traje e a sua estatura. Mas que não sejam jeans, impossíveis de reconhecer; procure-se as de linho, que amassam e tem um toque de elegância despojada e tropical e que estão fora de moda, portanto, muito facilmente reconhecíveis. Afinal, era só o que faltava a Justiça ficar com o traseiro à mostra, justamente na solenidade do júri, tão detalhadamente preparada. Que seja linho, do misto, para não onerar a despesa. Não se vá comprar o Braspérola! Melhor pensando, devem ser adquiridas duas peças de cada tamanho, para evitar novos transtornos em caso de repetição desses desaparecimentos. As peças deverão ser fotografadas e tombadas para sua perfeita identificação. Recomende-se a lavação a seco, e que sejam de cor clara para preservar o tingimento, pois o linho é traiçoeiro e calça desbotada é pior a emenda do que o soneto. Ao senhor Secretário do Foro, para as devidas providências, minutando a devida Portaria com seus considerandos e expedindo as requisições de compra.

Florianópolis,

Diretor do Foro.