O LIVRO DE RECEITAS DE ELIANA CALMON

     A ex-ministra Eliana Calmon gosta de cozinhar e até já escreveu um livro chamado “REsp – Receitas Especiais”, onde mostra como fazer seus guisados, mas o que ela aprecia mesmo é criticar a magistratura.  Agora se presta a entrevistas à grande mídia, para dizer que “delação sem pegar o Judiciário não é delação”, ou que “é impossível levar a sério essa delação caso não mencione um magistrado sequer.” E que a “Lava-Jato também pegará o Judiciário.” É uma tristeza essa declaração, parece uma dessas trivialidades de conversa entre comadres. Mais uma vez, investe contra a magistratura. A referida senhora, ao longo do tempo, mostrou que possui uma obsessão pelo Judiciário, injuriava os juízes genericamente, afirmando, do alto da segurança de seu cargo de ministra do STJ  e Corregedora do CNJ, que havia “bandidos de toga” no Judiciário. Nunca disse o nome de ninguém, e como sempre acontece em casos assim, ganhou notoriedade.  A leviandade daquelas declarações, na época, recebeu as mais acerbas críticas da AMB e outras associações de juízes, inclusive do próprio presidente do STJ. A ministra atingiu a dignidade individual de todo magistrado do país, mas ganhou notoriedade. A agora ex-ministra também mostrou perplexidade com o fato de que a ODEBRECHT quase nunca perdia seus processos e “acha “muito estranho” a construtora “quase nunca perder uma ação na Justiça” e “nunca ter sido suspeita em nenhuma das licitações” das várias que já venceu no Brasil.” http://www.diariodocentrodomundo.com.br/essencial/eliana-calmon-delacao-da-odebrecht-sem-pegar-judiciario-nao-e-delacao/ . Daí, deve ela presumir, há corrupção no Judiciário. É esse o círculo vicioso do qual a ex-ministra não consegue sair.

     Pois a ministra aposentou-se e decidiu ser candidata a uma vaga no Senado, pelo PSB e recebeu financiamento da ODEBRECHT em sua campanha eleitoral: R$ 50 mil, assim como recebeu R$ 250 mil da OAS e mais R$ 90 mil da ANDRADE GUTIERREZ, todas empresas envolvidas até a medula no processo de corrupção institucionalizada que tomou conta da administração pública em nosso país. E mais, o site Conjur afirma que houve doações indiretas a sua campanha dessas mesmas empreiteiras, através de uma senadora da Bahia chamada Lidice da Mata e Souza, atualmente alvo de inquérito autorizado pelo Ministro  Fachin por recebimento de propinas da ODEBRECHT. Realmente, o nome da dita senadora aparece em inúmeras doações para a campanha de Eliana Calmon. Acrescente-se que a própria ex-ministra sabia, por conhecimento próprio, que a ODEBRECHT tinha inúmeros processos em trâmite no STJ, onde ela tinha sua cadeira. Recebeu também R$ 100 mil do BRADESCO, um dos campeões de processos no STJ e recebeu cerca de R$ 180 mil do Banco SANTANDER, outro cliente assíduo daquele tribunal. Sua campanha recebeu doações de quase R$ 3 milhões, no total. Esses dados estão disponíveis no seguinte link: http://inter01.tse.jus.br/spceweb.consulta.receitasdespesas2014/abrirTelaReceitasCandidato.action.

     A ex-ministra, questionada, disse que o dinheiro das empreiteiras foi recebido pelo seu partido e não por ela, que apenas apanhou o repasse. Ora, a ministra não tem nenhuma ingenuidade, é uma mulher experiente e desconfiada, com enorme preocupação com a moralidade pública. Deveria escolher seu partido com cuidado, e mais do que tudo, certificar-se da origem do dinheiro que financiaria sua campanha política. E agora, a ex-ministra e candidata derrotada, dá-se ao trabalho de voltar com suas declarações moralistas, parecendo ansiosa de que pelo menos um juiz seja enredado em alguma delação.

     Na verdade, não é preciso nenhuma delação para jogar as luzes sobre o Judiciário, como o financiamento da campanha da ex-ministra mostrou. Certamente ela não agiu de má-fé, mas foi negligente, e involuntariamente, deu o mau exemplo que tão ferozmente critica. A mídia, mais preocupada com denúncias de corrupção no Judiciário, simplesmente não sabe fazer as perguntas certas, essa é que é a verdade.

     Que me desculpe sua excelência, mas creio que se ela estivesse no CNJ e se deparasse com algum ex-magistrado que apresentasse assim a sua receita de campanha eleitoral, mandaria investigar, com certeza.

     Como diz o ditado português,  “vamos falar das telhas para baixo.”