A MAGIA DO 10º ANDAR

A MAGIA DO 10º ANDAR

 

                    Eram sete horas da manhã e o grupo de 05 serventes se espremia no elevador entre baldes, aspiradores e esfregões em direção ao último andar do prédio do tribunal de justiça, onde se situava a presidência. Todo dia a limpeza começava naquelas dependências, nem se admitiria de outra forma e aquele era o único lugar que a chefe dos serviços gerais inspecionava metodicamente no meio da manhã, olhando atrás das portas, passando os dedos pelas mesas e batendo os pés nos tapetes que decoravam todas aquelas salas. Apertada num ângulo do elevador ia a servente Marisete de Souza e Silva, que era tratada pelas colegas de trabalho simplesmente como Mari. Mari tinha cerca de trinta anos e a pele morena; era rechonchudinha e tinha os cabelos cacheados e  os olhos eram negros e arregalados. Tinha a natureza tímida e sombria e não compartilhava as intimidades e vulgaridades das suas colegas de trabalho e preferia realizar sua tarefas sozinha, embora isso lhe acarretasse uma carga de serviço. Mari nunca casara e morava no quartinho dos fundos da casa de sua mãe, em um dos inúmeros arrabaldes da cidade. Era ali que todas as noites se entregava as suas fantasias, ao seu mundo invisível e maravilhoso, onde se encontrava com o seu príncipe encantado, que a levava a passeios no banco traseiro de seu automóvel oficial negro e brilhante, com o motorista usando calças escuras e camisa branca com gravata. Não havia sétimo céu por onde Mari não voasse e nem céus onde os ventos não desenhassem com as nuvens brancas as iniciais do casal. Seu amor, suspirava ela para as amigas, era um anjo celestial, vestido com sua toga romana que se abria nas insuspeitadas dobras quando ele caminhava apressado no corredor para não se atrasar para a sessão de julgamento. Aqui na terra, Mari deliciava-se com as deferências dos servidores do tribunal quando os tacos de seus sapatos pisavam nos granitos que ela tantas vezes encerara. Depois se dirigiam a seu apartamento com amplos cômodos e sacadas que se debruçavam para as águas brilhantes da baía, e onde os dois, sentados no final de tarde, juntinhos trocavam confidências e carícias amorosas. Para alimentar essas fantasias de paixão, Mari aceitava a mais elaborada tarefa, a que requeria maior cuidado e detalhe, que era limpar a galeria de ex-presidentes do tribunal, onde ficavam dependuradas cerca de cinquenta fotografias em preto e branco dos bustos dos desembargadores que haviam ocupado aquele cargo ao longo do tempo, em tamanho natural, com molduras rococós pintadas de amarelo ouro, abaixo das quais as pequenas placas de bronze identificavam os retratados. Quem passasse por aquele corredor e contemplasse aquele pequeno batalhão em fila quádrupla, se tivesse bom olho e perspicácia, perceberia que uma foto em particular, na segunda fila de baixo para cima, a quarta da esquerda para a direita, apresentava um brilho especialmente acentuado e a plaquinha destacadamente melhor polida dos que as demais. Seu orgulhoso usuário era o desembargador Ramalhete das Flores, já há algum tempo aposentado. Imobilizado como seus colegas, destacava-se por sua expressão leve e um tanto brejeira, que contrastava com as carrancas sisudas dos demais, apesar de sua toga imponente e das sombras mal dirigidas pela inabilidade do fotógrafo. Tirada muitos anos atrás, mostrava o desembargador com todo o charme de seus 50 anos e o cabelos ainda negros, quando assumira a importante função de dirigir o tribunal. Pois aquele era, aquele e não outro o amor secreto de Mari, que dedicadamente limpava e espanava carinhosamente a moldura do retrato, como se fosse um barbeiro empoando de talco o pescoço do seu cliente. Todo dia pela manhã, antes de iniciar seu trabalho, Mari caminhava ao longo da galeria e mirava seu amor e tinha a viva impressão de que ele, apesar de encerrado no vidro da moldura, a acompanhava com os olhos à medida que se deslocava pelo corredor. Ela então sorria envergonhada e baixava os olhos e entrava em uma sala dos fundos, embora nada tivesse para fazer lá. Então, retornava, evitava olhar o retrato mesmo sabendo que estava sendo observada e apanhava seus apetrechos e começava a limpeza. Espanejava todas as fotografias e com um pano úmido, limpava as reentrâncias de cada moldura e depois polia todas as plaquinhas, enquanto, sobranceiro, o desembargador Ramalhete se destacava no seu esmerado brilho.

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            Enquanto isso, na cozinha das serventes, as coisas não iam muito bem. Genoveva, a chefe dos serviços gerais, fumava e falava sozinha. Genoveva tinha 59 anos e estava às portas da aposentadoria, depois de quase trinta anos limpando os gabinetes do tribunal. Era baixinha e barriguda, grosseira e mal humorada, a tudo tratada com sarcasmo e cinismo. Aplicara maquiagem permanente exagerada no rosto, o que lhe dava um ar algo diabólico. Apesar da idade, a velha não tinha o respeito das subordinadas e ninguém se dava ao trabalho de colocar um “dona” na frente de seu nome. Genoveva falava sozinha com seus inimigos invisíveis, como as mulheres ordinárias fazem e fumava com força, mostrando os dentes amarelados e mal enfileirados, pouco se importando com a presença da servente que fazia o café.

            – Aquela metida sem vergonha, quem ela pensa que é para se meter na vida dos outros. Já aturei muito na vida, mas dela não vou aturar nem um pingo. Vou resolver esse assunto sem piedade!

            A servente, embora acostumada com os maus bofes da chefe, assustou-se com tanto rancor e perguntou:

            – Quem, Genoveva?

            – Quem?  Eu te digo quem. A  Marisete, aquela santinha do pau oco.

            – Mas o que houve? parece coisa grave, será? ela mal cumprimenta a gente de tão discreta – insistiu a servente.

            – Cuida dos teus assuntos que eu cuido dos meus. Olha aí a água fervendo na chaleira – devolveu-lhe Genoveva, que apagou o cigarro na xícara do café e saiu decidida para o corredor.

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            Uma ameaça como aquela não era de se desprezar, pois era sabido que Genoveva não raro apelava para os empurrões e tapas para resolver suas pendências e ainda pela manhã Mari, com os olhos arregalados, rodeada pelas colegas, ouvia assustada o que se passara e não sabia explicar o que poderia ter feito para ofender a chefe de forma tão profunda. “Mas o fato é que ela quer se vingar de você”, era o que lhe diziam suas colegas, que não se cansavam de fazer-lhe toda a sorte de perguntas para tentar encontrar o fio daquela meada e pareciam ainda mais temerosas do que a servente, pois todas conheciam a força da vingança de Genoveva. Mas ninguém foi capaz de explicar a razão de tamanha jura. Então alguém sugeriu que Mari procurasse dona Efigênia, a mais antiga servente do prédio do fórum, que era mediúnica e benzedeira, e poderia ajudar na desfeita de toda aquela maldade que estava por vir. As outras gostaram da ideia e Mari, naturalmente fantasista e crédula, resolveu que uma conversinha não faria mal, mesmo que não fizesse bem.

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            Venha cá, minha filhinha – disse dona Efigênia, empurrando levemente Mari até o arquivo da vara criminal. Hum, hum, o que será que te perturba, hein, meu anjo?

            Dona Efigência era o oposto de Genoveva, se uma era o positivo, a outra era o negativo, eram luz e sombra, brilho e opacidade. Dona Efigênia envelhecia naturalmente e tinha aquele ar que inspira confiança e nos faz ter vontade de confidenciar nossas coisas. Ela colocou as mãos sobre a cabeça de Marisete, fez algumas misuras  incompreensíveis e perguntou-lhe sem rodeios:

            – É você, minha filhinha, que faz a limpeza da galeria das fotos dos ex-presidentes lá no tribunal?

            – Sim, sou eu – respondeu Mari.

            – E você já reparou como a fotografia do desembargador Ramalhete está mais limpa e reluzente do que as demais?

            Marisete sentiu a garganta secar, mas mentiu:

            – Não, nunca reparei.

            Dona Efigênia, como se não ouvisse a resposta, continuou:

            – Há quanto tempo você está esfregando aquela foto, minha filhinha?

            – Faz uns quatro meses que aquele é o meu trabalho, senhora, respondeu Mari, engolindo em seco.

            – Pois fique sabendo, minha filhinha, que a causa de toda essa mal-querência é aquele retrato – sentenciou a benzedeira.

            – Mas, como? Não entendo isso. Será, então que o meu zelo e esmero podem ser um castigo para mim? Eu só faço o meu trabalho e nada mais. Me explique isso, dona Efigênia, que o meu coração vai rebentar. Como pode o retrato dele ter alguma culpa?

            – É tão simples, meu anjo. O seu desembargador Ramalhete – e Marisete corou intensamente àquele seu dito assim sem malícia, como se fosse algo natural – teve um caso com a Genoveva. Todo mundo aqui no tribunal sabia da história e se divertia fofocando e zombando dela pelos gabinetes. A tola era a única que levava a coisa a sério, mas ela não passava de mais uma no caderninho dele. Um namorador de primeira, filhinha, é isso que ele era. Mas o romance dela acabou terminando com um aborto complicado e depois ele deu a ela o posto de chefia das serventes e livrou-se dela em seguida. Tudo isso se passou há muito tempo e hoje poucos se lembram do caso ou acham que não vale a pena lembrar, pois há coisa muito mais grossa rolando por aqueles corredores, não é, filhinha? A Genoveva, como você sabe, é rancorosa, se alimenta dessas coisas ruins e lá vai você polir o quadro do doutor Ramalhete e avivar todas aquelas lembranças. Ela pensa que você fez por gosto, para magoá-la, troçar dela e agora vai se vingar.

            Marisete estava pálida, seu coração batia loucamente e ela respirava a custo. Mal conseguia manter-se de pé. Tudo girava a sua volta. Apoiou-se num escaninho.

            – Namorador? Ele era namorador? – gemeu suplicante, os olhos saltando das órbitas – e com a Genoveva? Será isso possível, dona Efigênia, não será isso também uma peça que estão me pregando?

            – É verdade, filhinha, aí está toda a história – respondeu tranqüila a benzedeira. Agora você já sabe dele. Certos amores não tem futuro, filhinha, principalmente naquele prédio. Agora vá, vá, converse com ela. Todo esse baralho precisa ser cortado, filhinha.

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            Depois de passar a noite em claro, assaltada pelos mais sombrios pensamentos, Marisete acabou encontrando-se a sós com Genoveva em uma das salas vazias do décimo andar e tenta explicar-lhe, mentindo, que tudo não passava de um mal-entendido. Admitiu que soubera do seu romance com o doutor Ramalhete com dona Genoveva e que observara que o seu quadro estava mesmo mais lustroso do que os demais, mas que nada sabia a respeito até então, tentava apenas fazer o melhor possível e pediu o perdão se a ofendeu. Enquanto tentava justificar-se, era interrompida a todo tempo por Genoveva, que enfurecida com o conhecimento da sua história pela servente, enfiava uma enxurrada de “ah, é”, “e daí”, e “eu com isso”, “te mete com a tua vida”, afiados e brutais, que Marisete aparava como podia e continuava com seus grandes olhos vertendo lágrimas. Finalmente, depois de ter se desafogado com toda a força de injúrias que lhe vinham à cabeça, deu-se por satisfeita com o sofrimento da outra, acendeu um cigarro, deu o assunto por encerrado e a mandou para a limpeza, como se fosse um sargento. Quando Mari saía pela porta, Genoveva chamou-a autoritária e ela se virou. Genoveva soltava para cima a fumaça da tragada e falou desafiadora com a cabeça levantada:

            – Mas ele era bonito, não era?

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            Pouco depois, no topo da escada, Marisete limpava a galeria dos retratos  e propositalmente, deixou de espanar a foto do doutor Ramalhete, a quem lançava olhares de mulher ofendida. Todo o seu mundo havia desmoronado, tudo se rompera definitivamente na noite anterior e só lhe restavam as misérias de sua humilde e solitária condição e de sua desconsolada vida. E foi só então, assim, de surpresa, abandonada a sua tristeza, que percebeu que lá de cima, na primeira fileira, à direita, os olhos arredondados do desembargador Anicácio Canela acompanhavam atentos os seus movimentos. E Marisete corou.