A INSPEÇÃO

     O senhor L. era escrivão de carreira numa pequena comarca do interior. Viera da capital jovem, após ser aprovado em concurso público para aquele posto longínquo pouco concorrido, esperando obter em algum tempo uma transferência para uma cidade melhor. Mas por razões que nunca ficaram muito claras, acabou se estabelecendo mesmo naquele recanto. Casou e teve filhos, filou-se ao Rotary Club, adquiriu um prestígio social menor e durante vinte e cinco anos executou as mesmas tarefas. Não tinha outras pretensões, portanto, mas compensava a falta de perspectiva profissional com a noção íntima de que seu trabalho era fundamental para o bom êxito da justiça. Trabalhava metodicamente e com esmero e sentia-se, com uma certa razão, dono dos processos, pois os via nascer como simples petição, cuidava deles à medida em que iam encorpando, definindo-se, até o momento em que os arquivava definitivamente. Era sempre com desgosto e desconfiança que abria vista deles aos advogados, que considerava relaxados e atrevidos, com suas anotações nas folhas e examinava os autos com cuidado no balcão antes de fazer a baixa.

     Todo esse sentido de organização e ordem encontrava o seu ápice na coleção de carimbos do senhor L. Boa parte de sua mesa de trabalho era ocupada por uma enorme bandeja, dentro da qual, com ordem e disciplina draconianas, encontravam-se algumas dezenas de carimbos, que eram identificados de acordo com a fileira e a linha que ocupassem e o senhor X possuía uma tabela em que registrava o texto de cada um deles. Com o tempo, essa tabela deixou de ser utilizada pois todos no cartório já conheciam os carimbos de acordo com seu local na bandeja, de forma que quando um serventuário necessitava fazer uma conclusão num incidente de insanidade mental, digamos,  dirigia-se ao senhor L. e pedia o carimbo C4, e assim por diante. Os servidores não gostavam daquele sistema e preferiam os impressos genéricos, que previam praticamente todas as situações possíveis e que, mediante um “x” no quadrinho certo, encaminhava o processo para o seu destino devido. O senhor L., contudo, não aprovava essa alternativa, pois, dizia, era muito fácil de adulterar e confundir, além de implicar no uso de grande número de folhas nos autos, que os inchava desnecessariamente e tornava a tarefa de manuseio demorada e até irritante. “Nada como um bom carimbo para por as coisas em ordem”, dizia e aproveitava sempre qualquer ocasião de descuido dos funcionários para exaltar a importância deles com exemplos irrefutáveis. “Imaginem, senhores, que de um simples carimbo pode depender a liberdade de um homem” –e apontava para sua bandeja – “acaso não pode um cidadão ser privado de seus bens se não tiver sido exarada a certidão correta? E não pode a sua ausência determinar a nulidade absoluta de todo um processo, ou mesmo” – e aqui abaixando a voz – “a prova da indolência de algum magistrado? Senhores, essas pequenas pecinhas são quase mágicas. São o testemunho de nossa atenção e nós somos os depositários de seus poderosos efeitos.” E ninguém poderia rebater os seus argumentos, de tão verdadeiros e simples que eram. Todo funcionário subalterno tinha, pois, a obrigação severa de utilizar os carimbos do senhor L. com parcimônia, cuidado, e principalmente, de devolvê-los à sua exata fileira e linha, sob pena de admoestação. Nada naquela repartição funcionava sem aquela tábua de carimbos e quando algum apresentava sinais de desgaste, o sr. L. antecipava-se e providenciava sua substituição e depois brincava com os subordinados com um humor desagradável, segurando o carimbo velho sobre a cabeça: “vejam, senhores., o senhor A7 vai se aposentar” e abria um gavetão que mantinha em sua mesa especialmente para esse fim. E assim, tomava todas as precauções para que esses minúsculos artefatos de madeira envernizada estivessem sempre em bom estado e ordem para que pudessem elas dar o sentido necessário aos ritos e trâmites dos processos, pois, segundo ele gostava de repetir, qualquer pessoa sabia que não pode haver justiça sem carimbos.

       Portanto, foi com uma satisfação estampada no rosto que ele se dirigiu à Sua Excelência, que passava por aquele rincão em visita correicional:

     “Permita-me, Excelência” – disse o serventuário, enquanto selecionava um carimbo da grande travessa repleta de carimbos ao lado de sua mesa. Sua mão correu nervosa sobre todos eles até que, com a ponta dos dedos, escolheu um, assim como quem escolhe uma uva suculenta num grande cacho e o exibiu – “É este aqui, Excelência, veja a anotação lateral, que identifica a fileira e a linha a que pertence, e aqui está a tabela que elimina qualquer dúvida a esse respeito.” E, ato contínuo, bateu com o carimbo sobre uma folha em branco, exibindo-a, em seguida.  – “Aqui está”, disse satisfeito. “O “conclusão”, primeira fileira, terceira linha, o A3, sim, não há dúvida”.

     Em seguida, silenciou, aguardando orgulhoso a aprovação de seu superior. Sua Excelência, contudo, não estava convencido. Não gostava de burocracias menores e aquela manada de carimbos, parecia-lhe um gasto inútil de dinheiro público. Observava, contudo, que todos eles tinha uma tacha prateada cravada junto aos cabinhos para indicar a posição correta, e pareciam  condecorações espetadas na lapela. Nesse instante, seu pensamento fugiu dali para uma esquina do passado, em que, quando era apenas um amanuense, se assim podemos dizer, em uma repartição pública da Justiça, foi chamado por seu superior, que lhe fixou junto ao bolso da camisa uma humilde menção honrosa por haver completado dois anos de serviço sem qualquer advertência. Muitas outras condecorações vieram depois e ele as exibia em casa dentro de uma cristaleira que fazia questão de limpar pessoalmente. Somente as retirava para usá-las conforme a ocasião. Sim, de fato, era uma satisfação. Naquele dia, como sempre fazia em suas inspeções, selecionava duas ou três condecorações pequenas, de lapela, para ostentá-las diante dos pequenos e acanhados servidores dos recantos rurais do Estado e nunca esquecia aquela primeira honraria, que fazia questão de exibir a eles, não por orgulho, mas com empáfia que deixava transparecer uma quase sinistra falta de sinceridade.

     Neste ponto, é melhor dizer já, que sua Excelência era um homem em que a boa educação e a fidalguia serviam apenas para deixar antever que debaixo delas havia um despenhadeiro de rancores e falta de misericórdia que os anos de serviço público só fizeram esmerilhar e polir até que exibissem um brilho que ultrapassava qualquer manto de humanidade com a qual tentasse cobri-lo. Mas, naquele dia, quando já se enfadava com toda a conversa de burocracia e o excesso de cortesia do senhor L. – aquele servilismo que ele tão bem conhecia dentro de si  ao longo de sua vitoriosa carreira e que tanto detestava – a lembrança daquelas condecorações e medalhas o havia amolecido um pouco e desejou ser condescendente. Mas como todas as  pessoas desafeitas à condescendência, mesmo nesses momentos era infeliz. Então, disse ao serventuário, que esperava a sua manifestação: “vejo que o senhor prima pela organização e o cuidado com a sua estação de trabalho. Sim, sim, é algo muito elogiável. Mas essa quantidade de carimbos, não seria talvez possível substituí-los por um número bem menor deles, em que as providências fossem simplesmente marcadas com um x dentre várias opções que o carimbo ofereceria? Com isso o senhor teria mais espaço na mesa e poderia distribuir esses carimbos genéricos a outros colegas de trabalho e se me permite… Por quê não substituí-los por impressos? Com certeza menos árvores precisariam ser cortadas para satisfazer a voracidade de tantos cabinhos.”

     Essa manifestação foi recebida pelo senhor L. como um golpe atordoante. Instintivamente olhou para os colegas de trabalho e percebeu que eles se entreolharam furtivamente exibindo um riso de aprovação e escárnio. “Por quê isso? Algum dia os ofendi ou humilhei ao longo desses anos? Está visto que não gostam de mim…” Olhou para o seu juiz, postado ao lado de Sua Excelência e viu nele apenas um sorriso indulgente, nada de solidariedade e simpatia, justo ele que tanto gostava da ordem do cartório. “Por quê não se manifesta, não diz algo à Sua Excelência? Não quer desagradá-lo, com certeza…” Ainda tentou ponderar com Sua Excelência, utilizando os mesmos argumentos que dirigia aos funcionários, mas o Corregedor afastava cada um deles com um aceno de mão; “Sim, sim, é tudo se resume a uma questão de método, e o seu está ultrapassado” – disse, aborrecido por ter suscitado aquela questão dos carimbos, irrelevante e sem status para o seu nível judiciário e contrariado por estar discutindo retoricamente com um mero servidor. Ao ouvir isso, o senhor L. transmudou o frescor de faces tão cuidadosamente escanhoadas  para aquela visita,  em um tom macilento e rugas sombrias aos poucos se delinearam em sua fronte. Ele percebera que todo o seu esforço, aquilo em que acreditava com fervor como uma das mais importantes tarefas do serviço público, estava irremediavelmente perdido pelo desdém de Sua Excelência. Ficara claro que o Corregedor não aprovava os carimbos e que a sugestão que lhe dera,  mais do que isso, era quase uma advertência para que simplesmente passasse a adotar aquilo que outra cabeça lhe ditava e abandonasse uma rotina bem sucedida de vinte e cinco anos como escrivão. Afinal, ele não sabia como funcionavam essas coisas? Já viria a ameaça explícita. “Para quê isso? Vir de tão longe para apenas para colocar sua enorme pata elefantina sobre mim, esmagar-me, mudar uma rotina perfeita? Por quê não aprovava tudo cumprimentava a todos, dizia algumas palavras de estímulo, como era praxe e simplesmente ia embora? Falar assim depois do almoço que lhe oferecemos, com os nossos minguados vencimentos…Safado maldito!”

      Isso era o que voluteava silenciosamente pela cabeça do senhor L. enquanto Sua Excelência o observava e percebia o efeito destrutivo de sua troça. Se lhe desagradava o excesso de cortesia, mais ainda o molestava a descortesia, que tomava como ofensa à dignidade do seu cargo. Também fechou o cenho, o suficiente apenas para demonstrar o seu desgosto pela reação do senhor L. e resolveu encerrar o assunto que lhe despertava lembranças e sentimentos demais pesados e que estragariam o prazer do almoço tão delicadamente preparado. “Sim, sim, é isso mesmo. O senhor me mande um expediente na semana que vem informando as providências que adotou a esse respeito” e virando-se para o assessor a seu lado: “o senhor faça o favor de fazer o registro na ata de inspeção.” E, como se tivesse lido os pensamentos do senhor L.,  em seguida cumprimentou a todos os servidores,  e despediu-se.

    Naquela noite o senhor L. não conseguiu conciliar o sono. Viu-se a si mesmo como um indivíduo marginal, um criminoso até, e pior, uma criatura insignificante, sem nenhuma importância. Agora imagina os seus colegas de trabalho reunidos em um bar relembrando o incidente e escarnecendo dele, o “madeireiro”, da sua reação, de seu sorriso amarelando, amargando, deve ter sido ridículo, patético. Viu Sua Excelência dormindo sossegadamente, depois do mal que fizera, tentou refazer numa fantasia todo o dia sem aquela ocorrência, mas não podia. Algo se partira muito profundamente e o senhor L. chorou silenciosamente sem saber porque e acabou dormindo. Sonhou que os pequenos carimbos se transformaram num grupo de soldados, em uma fila tão organizada quanto na bandeja, vieram buscá-lo em casa à noite, cada tachão prateado brilhando com um olho maligno, e o arrastaram até o fundo da sala do arquivo-morto. Lá, entre pilhas de processos empoeirados e sob as ordens de Sua excelência, foi fuzilado sumariamente. O senhor K., ao contrário do que costuma acontecer nesses pesadelos, não acordou sobressaltado. Agiu como o sonho dele esperava e simplesmente morreu.