CONGRATULAÇÕES ECLESIÁSTICAS

   Como a linguagem forense costuma, com fequência, ser rebuscada,  e a linguagem é uma coisa fascinante, a meu ver, hoje faço a sugestão a quem se interessar pelo tema, e tenho alguns leitores portugueses que certamente vão se interessar, de uma obra que é um verdadeiro Tratado de Bajulação, cujo conteúdo é tão espetacular que parece até obra de ficção, mas não é. Trata-se de um livro intitulado “SECRETARIO PORTUGUEZ, OU METHODO DE ESCREVER CARTAS”, editado em Lisboa em 1782, “com licença da Real Meza Censoria”, que possuo em minha biblioteca.

   É um livro difícil de encontrar, evidentemente, mas talvez possa ter sido digitalizado em algum instituto bibliográfico de Portugal e disponível para leitura on line.

   Trata-se, como o nome adiante, de um método para escrever cartas, que bem poderia servir de inspiração nas solenidades de entrega e agradecimento de medalhas e comendas.

   Transcrevo a seguir, uma pequena das centenas de cartas que a obra possui, distribuídas por temas de interesse ( nomeações, agradecimentos, queixas, louvor, pêsames, enfim, nada fica de fora) e cada seção subdividida em cartas específicas segundo a importância social do destinatário.

   Esta é um modelo de CONGRATUÇÕES ECLESIÁSTICAS a um cardeal:

“Vou tarde a dar a V. Eminencia os parabens pela sua dignissima promoção ao Cardinalato, não por que fosse tarde em alegrar-me com tão consideravel noticia: mas como a minha alegria he de pessoa particular, pareceo-me justo que para ser conhecido, fosse depois do applauso universal; sendo que o meu pela sua extraordinaria grandeza, me faz crer que sempre havia ser entre todos conhecida. V. Eminencia desculpe na demora, e acceite o rendimento, e sinceridade deste meu obsequio, como de quem mais que todos, applaude a elevação de V. Eminencia, e conserva ainda maior applauso, para quando vir a V. Eminencia enthronizado (como espero) na Suprema Dignidade da Igreja: para a qual já vão fazendo escada os seus altissimos merecimentos. A pessoa de V. Eminencia guarde Deos por felices annos.”

   Constitui uma das mais discretas da obra e quando estou aborrecimento, abro o livrinho e leio qualquer uma delas ao acaso e ganho o dia. Nessa aí de cima o “fazendo escada os seus altíssimos merecimento” é de lascar.

    Ia me esquecendo do principal, o nome do autor. Trata-se de FRANCISCO JOSÉ FREIRE, que, segundo o prólogo, é nome bem conhecido na “República das Letras”. E merecidamente. Aliás, como diria Dom Quixote,  totalmente merecedor do merecimento que merece a vossa grandeza.”