PAI BALTAZAR

     Eu tinha dezoito anos, era 1974 e meu pai tinha voltado a usar o carro da repartição, como eles diziam, um jeep Willis com portas e capota de lona, que eu conhecia desde a infância, o único veículo do Ministério do Trabalho em Santa Catarina, de uso do delegado, cargo que ele ocupava antes do golpe de 64. Nós havíamos nos mudado para Barreiros, em São José, e meu pai queria visitar um antigo vizinho, o seu Osmar, que morava na ilha, no bairro da Agronômica e cuja filha ele e a mãe haviam batizado. Mas não era uma visita comum, meu pai queria consultar-se com o preto velho que aquele vizinho recebia e minha mãe me chamou à parte e pediu-me para acompanhá-lo, porque ele se sentia nervoso. Não sei exatamente o que meu pai pretendia  e durante aquela noite nada perguntou ou lhe foi revelado que pudesse me dar uma pista. O que pude perceber é que ele já havia passado por aquela experiência antes, nos tempos de vizinhança, quando éramos muito pequenos para testemunhar. Talvez quisesse apenas presenciar a revelação e escutar um pouco, conversar com o mundo espiritual, no qual ele acreditava. Não lembro da cachaça, se ele já a levou consigo ou se paramos em algum lugar para comprar um litro, numa garrafa de vidro, com uma rolha de cortiça e um rótulo claro. Acho que já estava no carro quando entrei. Saímos à noite, por volta das oito horas e chegamos meia hora depois. Eu ainda lembrava bem daquela rua, de onde mudáramos fazia uns sete anos, da nossa casa e da casa do seu Osmar, tudo parecia igual. Seu Osmar estava em casa com sua filha Denise, a afilhada de meus pais. Acho que eu nunca tinha entrado naquela casa, uma casa de madeira pintada de cor creme e mobiliada com simplicidade. Seu Osmar e a mulher, Ada, eram negros e pareciam gozar de uma certa estabilidade econômica, o que contrastava com os outros negros do pé do morro do Antão, todos muito pobres. Talvez fosse memória de criança, que não se dá conta do verdadeiro estado das coisas e que só percebe a miséria quando já cresceu o suficiente. Hoje, por exemplo, tenho uma perfeita noção de que, embora meus pais fossem funcionários públicos, vivíamos naquela rua numa humilde casa de madeira, que não era melhor do que a de qualquer vizinho, pagando aluguel e não possuíamos automóvel.

    Seu Osmar nos recebeu com a serenidade que ele emanava sempre, um homem tranquilo e em paz consigo mesmo, era essa a impressão que ele transmitia, ao contrário de dona Ada, que mostrava uma certa afetação por achar que tinha uma posição social distinta, era o que me parecia. Como já disse, ela não estava em casa naquela noite e meu pai e seu vizinho conversaram muito rapidamente sobre amenidades e logo em seguida ele pegou a garrafa de cachaça e juntamente com sua filha se dirigiram a um minúsculo quartinho que ficava no fundo da sala e que não tinha porta, apenas uma cortina de tecido protegendo a entrada.

    Instantes depois, ouvimos um forte barulho de pés batendo no chão com muita força e repetidamente, que durou alguns segundos, e então, Denise nos disse que podíamos entrar. O quarto era quase pequeno demais para caberem quatro pessoas, eu e meu pai sentamos em pequenas cadeiras de palha e ficamos de frente para seus Osmar, que estava sentado em um banco de madeira. Sua filha permanecia de pé, atrás dele. Todos estávamos muito próximos. Naquele momento, quem estava ali não era mais o nosso vizinho, e sim o Pai Baltazar. Bem ao lado dele, ficava uma pequena mesinha, onde estava a bebida, ao alcance de sua mão e a garrafa já aberta. Ele falava mais alto e com um sotaque arrastado e no começo fez algumas perguntas comuns, cujas respostas nós tínhamos que interpretar. Ele olhou para mim e perguntou quem eu era e meu pai me apresentou e ele indagou se eu iria ser “cortador ou falador”. Eu havia passado no vestibular de Direito e supus que seria “falador”, imaginando que devesse responder “cortador”, se tivesse passado em Medicina. Ele falou que iria me ajudar na minha primeira “falação”.

    Naquela época da minha vida eu já me considerava ateu (embora hoje ache que esses rótulos são desprovidos de sentido) e estava bastante cético em relação a tudo aquilo. Fui lá, confesso, com a maldade de desmascarar o homem. O Pai Baltazar não parava de beber, servia-se com sofreguidão num copo e engolia a bebida rapidamente. Num certo momento ele passou a mão pelo peito e descobriu um colar com um símbolo religioso, um São Jorge, parece, que ele transita também pela Umbanda, e o tirou da cabeça e ofereceu a meu pai, dizendo que o “cavalo” não iria gostar, mas quem estava mandando ali era ele. Meu pai recebeu o colar e o pendurou no próprio pescoço. Sua conversa, um pouco depois, deixou de fazer qualquer sentido para mim, era apenas uma arenga incompreensível e monótona, não havia conselhos, advertências ou vaticínios, mas meu pai permanecia fascinado com aquela presença e apenas ouvia ou fazia breves observações. Parecia para mim que o verdadeiro propósito dele era o contato com o divino, pouco importando a mensagem. Num instante, o cheiro da cachaça impregnou o quarto e o espírito mostrou-se completamente embriagado. A conversação, se é que naquela altura alguma coisa parecida estivesse acontecendo ali, ficou inviável, ele não falava mais, cuspia algumas palavras, ficava bastante tempo de cabeça baixa e ainda bebia. Eu observava, já bastante entediado com aquilo e com o insuportável cheiro de cana que saía do corpo daquele homem. Até hoje não senti um cheiro tão forte e profundo de álcool exalando de uma pessoa e pensando bem, tudo o que senti desde então foi hálito de bebida, mas aquilo era diferente. Ele era um incenso ardendo, quase se podia ver o efeito atmosférico do álcool evaporando de seu corpo. Eu olhei a garrafa e medi com a máxima atenção que pude, os dois terços do litro que ele havia bebido em cerca de 15 minutos. Até hoje consigo ver a marca. Para mim, naquela altura, ele estava entrando num coma alcoólico, um longo e pegajoso fio de baba escorria de sua boca flácida até seus joelhos, seu olhar estava mortiço e de repente, seu tronco caiu e ele foi amparado pela filha, que nos avisou que a sessão estava terminada e que deveríamos voltar para a sala.

    Saímos e esperamos. Eu sentei num pequeno sofá e meu pai ficou numa cadeira, na minha frente. Então, tornamos a ouvir aquele barulho de pés estertorando contra a madeira do assoalho e então seu Osmar veio para a sala. Nunca compreendi o que vi então. Seu Osmar estava sóbrio, inteiramente sóbrio e fatigado. Todo o cheiro de cachaça havia sumido. Ele veio até nós com a mesma serenidade de sempre e sentou-se ao meu lado e passava a mão na testa molhada de suor. Então olhou para o colar que estava no peito de meu pai e pareceu contrariado. Perguntou se havia sido “ele” quem lhe dera e meu pai respondeu que sim, e quis devolver, mas seu Osmar não aceitou, resignado.

    Fomos embora e não consigo recordar de eu e meu pai termos conversado qualquer coisa a respeito no nosso retorno para casa.

   Alguma coisa aconteceu naquela noite, isso é um fato, mas se alguém me contasse essa história eu não acreditaria. Só de uma coisa eu tenho certeza, não foi uma encenação. Perto daquilo, transformar a água em vinho era um truque banal. Eu presenciei então um milagre? Acho que não.  Enfim, o incidente não restaurou a minha fé perdida na adolescência, acho que foi um fenômeno psíquico e químico muito complexo e misterioso, e nesse sentido, uma revelação, uma maravilha, que era o que meu pai queria presenciar com os olhos do crente. E aquilo em que o crente acredita, existe.