O LOGRO DA DELAÇÃO DA JBS

     Não sei se alguém compartilha comigo de que acabamos sendo vítimas de um grande logro com essa delação da JBS e que, na verdade, eles não delataram praticamente quase nada que não fosse do conhecimento público, pois a mais expressiva parte das propinas foram pagas como doações eleitorais oficiais, pouco menos de 400 milhões de reais.

       Para começar, quem presta atenção no áudio da conversa entre Joeslei e o presidente Temer, chega à conclusão de que o delator realmente editou o gravação, cortando alguns trechos. Nada que comprometa o conjunto e a conivência terrível do seu interlocutor, mas aponta o que viria a ser essa delação. Há um seguimento em que ele menciona que está pagando um procurador da República que está claramente interrompido, como se vê da seguinte passagem:

Josley – Isso, isso. É, é investigado, eu não tenho ainda denúncia. Isso, não tenho denúncia. Aqui eu dei conta de um lado, o juiz, dar uma segurada, outro lado um juiz substituto que é um cara que fica…

Presidente Michel – Tá segurando os dois.

Josley – Segurando os dois. Oh… eu consegui [00:12:17] me ajude dentro da força tarefa, que tá…

     O procurador em questão é Ângelo Augusto Villela, que acabou sendo preso, depois de ajudar Joeslei, passando-lhe informações sigilosas e orientando-o na delação, acabando por ser traído por ele. Joeslei é um bandido esperto e covarde.

    Em troca dessa delação, o MP comprometeu-se com favores extraordinários a Joeslei, não pediu sua prisão e permitiu que ele viajasse com a família para os EUA, onde está consolidando os interesses do seu grupo e envolve até seu perdão judicial. Depois que a algazarra inicial amainou, ficou a sensação de que nada de extraordinário foi delatado pelos Batista, que merecesse a atenção especial que lhes deu o Ministério Público,  tantos foram os benefícios, que a delação do capo já é chamada de “delação superpremiada”.

    O que, na verdade, essa delação trouxe, foi quase nada. Distribuiu 500 milhões de dinheiro público em propinas que não pode provar, pois a maior parte delas veio disfarçada de contribuições eleitorais lícitas, tanto que os políticos envolvidos já se apressam na resposta padrão de que as suas contas foram transparentes e aprovadas pela Justiça Eleitoral, o que não deixa de ser verdade. Como diferenciar dinheiro limpo de dinheiro sujo?

   O que mais, além de horas e horas de depoimentos que são puro falatório, sobre histórico de propinas disfarçadas. Aprendemos bastante sobre técnicas de corrupção, mas como prová-la é outra história.

      O que resultou dessa delação, concretamente, foi o fim da carreira política de Aécio Neves, que não está preso (!) e um áudio que só vai contribuir para mais confusão, com o protagonismo dos mesmos políticos citados nas delações. Para nós, contribuintes, são vão sobrar as consequências, e creio que não serão agradáveis.  Ninguém deve ser ingênuo de acreditar que a imensa maioria de inquéritos e investigações vá chegar a algum lugar, ou que o país vá, finalmente, entrar nos eixos.

     Esse é o paradoxo dessa delação: todo o sistema judiciário vai ser enredado numa responsabilidade da qual não pode se esquivar, apesar de saber que estará exercendo um papel meramente simbólico.

      Por isso, não dá para entender toda essa fartura de agrados apenas para enredar o presidente da República e um senador, porque Dilma, Lula, Temer, Aécio, Serra, e outros amigos do ministro Gilmar Mendes, uma dúzia de governadores, ninguém será preso por essas delações. Vai sobrar para o carregador de malas.

     Enquanto todo esse rio de corrupção fluía, a JBS agigantou-se com dinheiro público obtido à base de pura criminalidade: cerca de 8 bilhões de reais do nosso dinheiro, obtidos à base de propina. E a empresa já disse que não aceita pagar a soma que exige o Ministério Público., tem negócios mais interessantes onde empregar esse dinheiro nos EUA. Se pagar alguma coisa, será com dinheiro da especulação financeira, da qual, inclusive, se beneficiaram para comprar dólares na véspera da divulgação do áudio que deflagrou a crise.

     Essa delação me deixa com a sensação  de que fomos vítimas de um golpe perfeito. Gerou instabilidade política no momento em que a economia começava a se reanimar, vamos voltar a viver momentos difíceis, praticamente ninguém será punido, o dinheiro não voltará para os cofres públicos, o pequeno empresário que precisar de uns trocados do BNDES para tocar seu negócio será soterrado debaixo de uma montanha de papel  e os dois irmãos vão continuar riquíssimos, rindo da nossa cara lá no exterior, para onde estão, em segurança, transferindo seus negócios.