CARTAS PSICOGRAFADAS E PROVA JUDICIAL – O CASO CHICO XAVIER.

 

    Em 2006, uma mulher chamada Iara Marques Barcelos foi absolvida da acusação de assassinato de seu amante,  o tabelião Ercy da Silva Cardoso. Ele foi morto dentro de casa, na cidade gaúcha de Viamão, com dois tiros na cabeça e ela foi imputada como como mandante do crime. O curioso é que ela foi absolvida com base nas declarações do próprio morto, que incorporou  o médium Jorge José Santa Maria e a isentou de culpa em uma carta psicografada. Houve recurso, e ao final, o TJRS entendeu que não havia razões para novo julgamento, porque as provas eram frágeis. Contudo, houve uma discussão acerca do uso da prova psicografada e e os desembargadores mostraram posições divergentes. O relator, des. Manuel José Martinez Lucas afirmou que “ o exercício da religião é protegido constitucionalmente e cada um dos jurados pode avaliar os fatos levantados no processo conforme suas convicções.” (http://www.migalhas.com.br/Quentes/17,MI97055,11049-TJRS+Mantida+a+absolvicao+de+acusada+que+apresentou+carta

    Não se tratou de um caso isolado, houve outros, que envolveram diretamente a pessoa de Chico Xavier. São dados que encontrei na internet, em um artigo de Aline Pinheiro:

“Na década de 70, a história do juiz Orimar Pontes, de Goiás, se cruzou pelo menos duas vezes com a de Chico Xavier. Em 1976, o médium psicografou o depoimento de Henrique Emmanuel Gregoris, assassinado por João Batista França durante uma brincadeira de roleta russa. No mesmo ano, o líder espírita psicografou a carta de Maurício Garcez Henriques, morto acidentalmente por José Divino Gomes. Nos dois casos, o juiz Orimar Pontes aceitou o depoimento póstumo das vítimas e os jurados absolveram os réus.

Em 1980, em Campo Grande, outra vez um escrito de Chico Xavier esteve nos tribunais como prova da inocência de alguém. José Francisco Marcondes Maria foi acusado de matar a sua mulher, Cleide Maria, ex-miss Campo Grande. O médium recebeu o espírito de Cleide. Com o depoimento, José Francisco foi absolvido. Em novo júri, chegou a ser condenado, mas a pena já estava prescrita.”  http://www.conjur.com.br/2007-jul-14/justica_aceita_cartas_psicografadas_absolver_reus

    A análise que a autora faz é bastante abrangente e proveitosa, e a certa altura, ela menciona que a admissibilidade dessa prova depende bastante da credibilidade do médium.

     Evidentemente, esse é um assunto polêmico, porque toca nas convicções e crenças mais valiosas das pessoas e meu propósito aqui não é discutir a validade dessas crenças, mas sim a interferência delas em assuntos tão mundanos como são as relações jurídicas.

     O Direito é uma ciência racional e não pode se compatibilizar por um tipo de prova de caráter absoluto, que não podem ser questionadas porque se se tenha a  crença (a esperança) em sua infalibilidade. É o que ocorre quando cartas psicografadas, são utilizadas em uma Estado que se pauta por valores laicos. O uso dessa dessa estratégia é tanto mais inaceitável na razão direta de que milhões de pessoas acreditem  em vida após a morte e na possibilidade de os mortos se comunicarem com os vivos.  Se exigimos o reconhecimento de firma em documentos prosaicos e aceitamos isso como um fato normal de nossa vida cotidiana, não é possível que um documento escrito por um morto através de um médium venha a produzir qualquer  efeito jurídico. Isso fica completamente fora da razão.

     E é aqui que chego no ponto que me motiva a escrever este artigo. Como vimos, Chico Xavier sempre foi considerado o maior médium do Brasil. Entretanto, quando se fala de credibilidade de médium e se coloca Chico Xavier no ápice dessa pirâmide, creio que as pessoas estão bastante enganadas. Estou convencido de que o homem era uma fraude, e há provas concretas e reais a corroborar essa afirmação, para desencanto de quem, infelizmente, acredite nele.

    Existem incontáveis endereços na internet que narram a sua participação numa fraude grotesca de materialização de um fantasma que surgia da imagem de uma mulher chamada Otília. A farsa é tão gritante, tão infantil, que até parece brincadeira e Chico Xavier participou ativamente dela e é impossível dar-lhe a menor dúvida de que não estivesse envolvido no esquema. A fraude foi desmascarada pela revista o Cruzeiro, em 1970 e fartamente documentada com fotografias e depoimentos. As fotografias são impressionantes. Vale a pena ler a história. Escolhi o endereço seguinte porque ele mostra as fotografias e remete a outras páginas: https://epocaestadobrasil.wordpress.com/2011/08/07/desmascarando-o-charlatao-chamado-chico-xavier-uma-farsa-10-provas-e-evidencias-contra-o-medium-enganador-roberto-cabrini-e-o-engodo/

Para estimular a curiosidade do leitor, insiro aqui algumas das fotografias:

     Repare-se que os dois casos em que ele psicografou cartas mencionados na transcrição mais acima ocorreram na década de 70 e 80, portanto, períodos relativamente próximos ao incidente a que me refiro. Os crentes realmente não se importam com a exposição dessa farsa, porque estão protegidos pela crença e isso é algo que deve se respeitar. Entretanto,  Chico Xavier não foi vítima e sim co-autor desse triste espetáculo e isso, para mim, o desqualifica como uma pessoa com qualquer credibilidade. Creio que esse episódio serve para mostrar a completa inadequação  do uso de prova psicografada em juízos ou tribunais.

    O propósito desta matéria não é questionar as crenças de quem quer que seja, e muito menos de analisar a fundo a questão. É simplesmente uma rápida abordagem que visa mostrar que, nesse terreno, todo cuidado é pouco. Está aí um tema que eu gostaria de ver o Supremo Tribunal abordar.