CASA NOTURNA OU ZONA?

 

     Nossa moralidade está muito bem protegida pela policia de costumes, ao menos aqui em nossa cidade. Como se sabe, é crime manter casa de prostituição (art. 229, do CP) e é crime o rufianismo (art. 230, idem), mas essas duas formas convivem numa simbiose perfeita desde a Antiguidade e tenho um palpite de que vão continuar existindo até o Juízo Final, pois prostituição entre maiores e capazes sempre foi simplesmente um negócio que traz grande contentamento para as partes envolvidas. Hoje essas práticas saíram das zonas e proliferam abertamente  nos centros urbanos.   Meu assessor para assuntos mundanos informa-me, então, que a polícia de costumes encontrou uma forma de eliminar completamente essas práticas criminosas em nosso meio, através de uma estratégia infalível:  obriga o dono da zona a abrir uma porta lateral na entrada da frente, que conduza diretamente aos quartos, preservando o ambiente onde se travam os colóquios em meio a muitos drinques a preços  ligeiramente fora da tabela, como uma inocente casa de diversões, onde tudo  acontece fortuitamente e as ligações afetivas brotam no espontâneo. Em razão dessa atitude intrépida de nossa polícia, surgiram várias portinhas a mais nas fachadas de nossas ruas e a zona passou a  receber alvará de funcionamento como casa noturna. Houve quem não se adequasse a essas medidas sanitárias e, como com a polícia não se brinca, acabou sofrendo as consequências do peso da lei.

  Como se vê, a polícia de costumes é mais sensata do que a austeridade de seu nome sugere, afinal, quando não se pode mudar a realidade, a solução é adaptar-se a ela. É esse o problema das realidades jurídicas, elas só são efetivas quando as pessoas acreditam nelas e no caso, a atividade em questão goza de um prestígio universalmente compartilhado, mas nem sempre explicitado.