ECLESIASTES NO TRE

    Agora que se encerra meu biênio no TRE-SC,  publico o texto que li no dia de minha posse, apenas para mostrar que um discurso não precisa ser necessariamente monótono, protocolar, ou previsível, exatamente como o de meu colega Hélio do Valle Pereira, ao assumir o cargo de desembargador e publicado aqui sob o título de “Excelente, mente”.

     ” Os primeiros ideólogos comunistas não gostavam do Eclesiastes porque ele dizia que não havia nada de novo debaixo do sol. Entretanto, mais de três milênios de história já haviam provado que o autor daquele livro tinha razão; os comunistas, apenas, não levaram em conta a natureza humana, apesar de o próprio Marx ter adotado para si o mote de Públio Terêncio: “nada do que é humano me é estranho”. George Orwell conhecia toda essa história muito bem e trata desse tema na excelente metáfora que é “A Revolução dos Bichos”. Os capitalistas, por seu lado, sempre conheceram a natureza humana, mas nem por isso construíram uma sociedade mais justa e solidária, pelo contrário. Os valores de liberdade e de igualdade tem se mostrado um paradoxo difícil de conciliar, e até hoje, nenhuma sociedade humana encontrou a fórmula para atingir essa harmonia. A natureza humana, o nosso egoísmo implacável, tem vencido, ao longo da história. Parece que essa é uma característica não só nossa, mas de todas as espécies que possuem um certo nível de autonomia. Por isso não há cores ou bandeiras que possam realmente nos distinguir. Os homens  não são brancos, pretos, ou amarelos, são um amálgama. É o nosso egoísmo, alimentado pelos maus exemplos, pelo preconceito, e pelo sono tranquilo do homem mau, que gera a falta de solidariedade social e a incessante burla da lei. Contudo, até onde sabemos, somos a única espécie que possui discernimento moral e isso nos dá alternativas, mas é aqui que se mostra o obstáculo a ser vencido. A consciência incomoda, e como diz o filósofo da moral Peter Singer, a consciência nos leva a conclusões a que preferimos não chegar, mas é justamente quando topamos com essas conclusões, que temos a oportunidade de parar um instante, refletir, e fazer a diferença com uma nova atitude diante da realidade, de quebrar as expectativas. Afinal, como dizia Platão “o bem, Fedro, alguém precisa nos dizer o que é o bem?”. Somente a cultura de verdadeira tradição de responsabilidade moral pode nos fazer avançar. A cultura, tal como a concebemos, essa cultura de supermercados, a cultura varejista da Europa foi a responsável pelas duas últimas grandes guerras, e hoje, a barbaridade da sua política para com os migrantes do Mediterrâneo mostra a relatividade desses valores  e escandaliza até o mundo inteiro. Paulo Francis, que não tinha ilusões políticas, costumava dizer que havia algo em nós, brasileiros, que nos distinguia dos demais povos: a nossa bondade essencial. Talvez isso seja mesmo verdade, somos uma miscigenação de cores, culturas e experimentados nas adversidades.

     A nossa desgraça é a monstruosa burocracia, abrigo seguro da corrupção, da malícia, das segundas intenções,  e que gera a sensação da impunidade, a maldade da injustiça que parece ser justa, o descrédito da política e da Justiça e a expressão maior de todos os desencantos: as generalizações.

     De fato, não é de se estranhar que os políticos costumem ser execrados pela opinião pública, mas dentro ou fora dos partidos, o homem é essencialmente um animal político. Quem critica a política e discursa romanticamente, cai nas graças do público, mas só até o ponto em que, para mostrar seu valor, ingressa na política. Sócrates foi morto porque era um homem  político e é mais conhecido por ter morrido como homem do que por ter vivido como um político.

     De minha parte, não confio em maniqueísmos e nem  paladinos da moralidade, desconfio das paixões políticas e não acredito em política fora de partidos. Acredito sim, que,  como diz um amigo, o homem que tem razão fala baixo. Simpatizo com a indignação. A vida me ensinou a não acreditar em bons ou maus partidos, e sim a acreditar que os partidos são feitos por homens e seu caráter, e é o caráter dos homens que define os partidos.

       Devemos nos pautar pela conteúdo da antiga inscrição dos foruns romanos, como me lembrou outro amigo: “honeste vivere, neminem laedere, sum cuique tribuiere” (viver honestamente, não prejudicar a ninguém, dar a cada um o que é seu).  Temos a obrigação de encarar as conclusões que a nossa própria consciência coloca na nossa frente e seguir, a todo custo um outro mote de Públio Terêncio: “Se não se pode fazer tudo o que se deve, deve-se, ao menos, fazer tudo o que se pode.

     Agradeço a distinção da presença das autoridades, dos meus amigos e familiares e dos meus colegas.

      Saúde e paz a todos, e como dizia Miguel de Cervantes, não se esqueçam de mim.

      Muito obrigado.”

 

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