CORRUPÇÃO E ESTUPRO

     O jornalista Jânio de Freitas publicou hoje na Folha de São Paulo digital, perfilhado com a linha editorial da empresa,  um artigo intitulado “Juízes rigorosos tem alto conceito, mas são péssimos”. Estava, é claro, se referindo a Sérgio Moro, por ter condenado Lula. O texto é de envergonhar pela pobreza de conteúdo e pelo seu oportunismo político.

    O curioso é que o jornalista parte de uma afirmação plausível. Juízes criminais rigorosos, carcerizadores, tem prestígio popular, mas costumam forçar a interpretação dos fatos para se encaixarem numa tendência pré concebida de culpa. Nós, juízes, que somos da área, conhecemos vários colegas assim e é verdade que esses magistrados não são os melhores. Costumam ter pouco embasamento teórico, pouco entendimento das funções do direito Penal e sua atividade intelectual se limita à formação de um convencimento a partir de suas próprias idiossincrasias e crenças.

    Gozam de prestígio social porque são vistos como paladinos da justiça e da moralidade,  e porque a população vulnerável à violência social adota como mote o princípio de que “lugar de bandido é na cadeia”. Claro que o direito Penal sempre é feito para os outros, não para nós próprios.

     Agora, afirmar que Sérgio Moro é um juiz rigoroso e desqualificá-lo é muita malícia e ignorância também. Primeiro porque ele não é um juiz rigoroso, rigoroso é o TRF-4, que confirma as suas sentenças e aumenta as penas que ele aplica.

    Depois, o mais importante, os crimes de corrupção tem uma característica peculiar. São irmãos siameses do crime de estupro. Seu modo de execução é o mesmo, a clandestinidade. Assim como nenhum estuprador comete o crime em praça pública à luz do dia, o corrupto não passa recibo e dissimula sua prática criminal através de uma sofisticada malha de operações para dar aparente legalidade ao crime. É o que se conhece como “modus operandi” e é clássico na criminalidade de colarinho branco (“white collar”) e lavagem de dinheiro ( “money laundering”).

    Daí que a prova para a condenação, tanto no estupro, quanto na corrupção, é encontrada através de indícios. Ninguém reclama da condenação de um estuprador, mas esse jornalismo viciado protesta contra a condenação de um corrupto, que nada mais é do que um estuprador dos cofres públicos.

     Para esse tipo de imprensa, todo juiz que condenar um corrupto petista será tido como rigoroso, mas será elogiado por seu rigor se condenar Eduardo Cunha e políticos de outras siglas partidárias. Imagine só o leitor a decepção desse jornalismo tendencioso no seguinte exercício ficcional: Sergio Moro condenando Michel Temer ou Aécio Neves. Só não vale considerar a reação do comentarista político de plantão no Supremo.

     Esses jornalistas saudosos do lulismo apegam-se ao mito da verdade real, que nessa concepção distorcida da função do processo e do devido processo legal,  aceitam como prova da corrupção apenas uma cena filmada ou a confissão do réu.  Mas, se a filha dos críticos da condenação de Lula sofrer um estupro, eles vão desejar com a maior intensidade de sua alma a condenação do acusado, apenas e tão somente porque a vítima reconheceu seu estuprador. Nesse caso, todos querem um juiz rigoroso.

    Era sabido que Lula seria condenado não porque haja uma perseguição judicial  (lawfare) a ele, mas porque o seu julgamento foi público, as inúmeras delações o apontavam como corrupto, davam detalhes harmoniosos da prática criminosa, do modus operandi, da simulação. Havia uma clara percepção de que o conjunto das provas era irrefutável e que à luz da razão, como corrupto não passa recibo, Lula tinha que ser condenado.

 

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s