SUA EXCELÊNCIA, O B.O.

     Uma das expressões mais íntimas dos brasileiros é “B.O.”, abreviação do temível Boletim de Ocorrência. O B.O é espécie de panaceia, semelhante à “aspirina”.  Quebrou um salto de sapato na calçada? Faça um B.O.; o vendedor não lhe entregou o produto no prazo? Faça um B.O.; o síndico lhe olhou de cara feia e lhe causou dor de cabeça? faça um B.O. e tome uma aspirina.

     O B.O. fez uma carreira brilhante e meteórica  na burocracia: de simples e humilde comunicação de crime à autoridade policial, hoje já ombreia em importância  com os nossos documentos de identificação civil. Um homem sem um B.O. no bolso não vale nada, embora essas declarações unilaterais de vontade não tenham valor jurídico ou interesse algum. Não é prudente sair de casa sem o seu B.O. no bolso. Se acaso extraviar, corra até a Delegacia mais próxima e faça outro, só para relatar o extravio.

     É bom conhecer o B.O. mais de perto, para evitar imitações. Ele é um formulário esquisito,  preenchido por um investigador policial que não investiga coisa alguma e que, muitas vezes, como única alma viva no distrito policial, passa o expediente inteiro ocupado em produzir B.Os. Há mais filas nas delegacias de polícia para lavratura de Boletins do que nas campanhas de vacinação. É preciso pegar senhas. Se não houver fila de espera, é melhor não perder tempo e perguntar logo onde fica a fila do B.O.  A principal peculiaridade dele, contudo, está em que o relato do ocorrido nunca possui concordância nominal ou verbal e tem redação truncada e obtusa, repleta de erros gramaticais. Nem se deve pensar em fazer algum reparo! Confira se tem no mínimo dois carimbos. Este é o B.O. autêntico.

    Também é útil saber que o B. O. tem um problema de ordem psicológica, um mecanismo de defesa, talvez;  possui uma timidez patológica, e depois de elaborado vai depressa esconder-se no fundo da memória do computador e nunca mais ninguém ouvirá falar dele.

    Se alguém noticiar um crime sério, o B.O. então, é levado de má vontade até a presença do delegado, que, nesse caso, não  se satisfaz com ele e baixa uma Portaria determinando a instauração de um inquérito, donde se pode concluir que não a polícia não mexe um dedo sem um B.O. e em cerca de 95% dos casos, com B.O. e tudo,  não toma providência alguma. Pode-se dizer que é a Polícia Estatística, no máximo.

     As pessoas, é verdade,  não tem muita expectativa também. Vão à polícia por uma de duas razões: a contragosto, porque sem o B.O não conseguem levar adiante seus interesses perante terceiros,  ou, de boa gana, porque precisam desabafar gratuitamente.  Fazer uma ata notarial, um protesto de título, uma declaração por instrumento público custa caro. Pensar melhor se valer a pena também dá trabalho. Relatam  banalidades de suas vidas, e a dignidade do B.O. – que não rejeita queixa alguma – se recusa a fazer mais do dar ao comunicante aqueles breves momentos de satisfação.

    O Boletim de  Ocorrência, portanto, faz parte do simbolismo da  (in)eficiência da administração pública no país,  e caiu muito bem no gosto do público, invadindo todos os recantos da irracionalidade oficial e privada.  Acabou se transformando em objeto de desejo, quase um fetiche. Tamanha é a sua dimensão que a Ocorrência é quase irrelevante, o que importa é o Boletim, e talvez fosse o caso de mudar-lhe o nome para O.B. – Ocorrência de Boletim.

   Como o B.O é versátil, depois de produzido, basta tirar uma fotografia, postar no Facebook e é só esperar um pouco que ele vem parar nos gabinetes dos juízes, dentro de um processo de reparação de danos morais.

     Prazer em conhecê-lo.

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