DOUTOR, POR FAVOR

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        Sempre me intrigou a razão pela qual o tratamento de “doutor” é concedido quase que  apenas a advogados e médicos, mas não é difícil esboçar um teoria a respeito:  esses dois profissionais detém uma posição dominante em relação a seus interlocutores, o cliente ou paciente, que está ligada, de alguma forma, a uma espécie de aflição que lhes acomete: o réu preso,  o indivíduo que perdeu sua casa, ou o doente que sofre a angústia do mal.

   Assumem estes, assim, uma atitude de submissão em relação aos outros, dominadores, que se manifesta no tratamento reverencioso e distinto de um título que nenhum deles possui e que, em muitos casos, nem merecem, pela platitude de seu conhecimento. O indivíduo, contudo,  se sevandija. Se precisar, trata por “eminência” ou “vossa reverendíssima”. Curioso é que ele é quem está pagando a conta, algumas vezes para ser tratado com descaso, o que faz parte da estratégia de alguns para aumenta a autoridade do “doutor”.

    Lembro que o médico do finado Tancredo Neves, que ficou famoso por ter conseguido dar cabo do presidente, numa história de responsabilidade até hoje bem guardada na sepultura,  e que fazia questão de ser chamado “o professor doutor”.

     De minha parte,  conheci uma dupla de advogados associados – amigos íntimos –  que, mesmo num boteco, tratavam um ao outro de doutor Fulano e doutor Sicrano e apuravam o ouvido quando o colega falava. O efeito era cômico, porque nenhum deles entendia patavina de direito e o que os salvava era a pompa e o tamanho do rubi no anel bacharelesco.

      O fato é que o tratamento nada tem a ver com a distinção do conhecimento por eles acumulado. O vocábulo doutor provém do latim doctorem, acusativo do substantivo doctor. Este substantivo latino, da família do verbo doceo (ensinar), designava aquele que tinha a função de ensinar, o professor. Era também da família do adjectivo doctus (instruído, culto), o que mostra bem qual o sentido originário da  palavra doutor.

     Tomei conhecimento dias atrás, de um artigo publicado pela jornalista Eliane Brum, da Revista Época, de 10/09/2012, em que ela se debruça sobre essa questão e vi que compartilhamos a mesma opinião, que ela colocou com grande clareza:

     O “doutor” médico e o “doutor” advogado, juiz, promotor, delegado têm cada um suas causas e particularidades na história das mentalidades e dos costumes. Em comum, o doutor médico e o doutor advogado, juiz, promotor, delegado têm algo significativo: a autoridade sobre os corpos. Um pela lei, o outro pela medicina, eles normatizam a vida de todos os outros. Não apenas como representantes de um poder que pertence à instituição e não a eles, mas que a transcende para encarnar na própria pessoa que usa o título.

     Se olharmos a partir das relações de mercado e de consumo, a medicina e o direito são os únicos espaços em que o cliente, ao entrar pela porta do escritório ou do consultório, em geral já está automaticamente numa posição de submissão. Em ambos os casos, o cliente não tem razão, nem sabe o que é melhor para ele. Seja como vítima de uma violação da lei ou como autor de uma violação da lei, o cliente é sujeito passivo diante do advogado, promotor, juiz, delegado. E, como “paciente” diante do médico, como abordei na coluna anterior, deixa de ser pessoa para tornar-se objeto de intervenção”. (Eliane Brum, revista Época, 10/09/2012).

     A expressão, contudo, extrapola o tratamento a médicos e advogados, para se tornar uma forma de estigma social, pois como bem lembrou a jornalista, o tratamento de doutor é usado por guardadores de carros, engraxates, carregadores de malas, vendedores ambulantes, etc.

    Nós, juízes, é que saímos perdendo. De excelência, passamos a doutor e daí a juiz: juiz Moro, ou simplesmente, Moro, ou Moro, o Covarde. Nem o doutor nos restaria se não fossem os nossos subordinados.

     Devo esclarecer que a expressão é antiga, importante título de grau universitário.

   Dessa nobre casta de graduados e titulados, conheço alguns na minha própria área, mas dificilmente consigo entender o que eles escrevem.

     Na minha opinião,  que há um excedente de 100% de doctorem entre nós, afirmação que só serve para mostrar o tamanho da minha ignorância, mas sei que um dia alguém vai me explicar qual a utilidade de um juiz “doutor”. Até lá, não gostaria de ser julgado por nenhum deles, porque muitos andam muito mais ocupados com suas dissertações do que com seus processos.

    Ainda bem que sempre tem uma medalhinha ou comenda que podemos faturar. Sem nenhum merecimento, é claro.

     Um título de “cidadão honorário” ou uma “menção honrosa” cai bem, embora a gente nunca saiba a razão pela qual está sendo distinguido pela honraria  e deixe o problema com quem a está oferecendo.

      Eu, o máximo que consegui em 28 anos de profissão, foi uma mençãozinha honrosa mixuruca no final de uma sessão da Câmara Municipal, por iniciativa de um vereador que precisava desovar aquele diploma. E ainda sofri a desfeita de uma vereadora que se retirou do recinto, em justo protesto. Já o de “cidadão honorário” foi outorgado a um outro juiz, que teve a felicidade de nascer na comarca, de onde saiu criança e para onde nunca mais retornou.

     Mas, justiça se fará: sei que existe uma comenda a minha espera. Brilhando altaneira, enveludada numa caixa do tamanho de uma pizza delivery.

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