HÓSTIA SEM GLÚTEN

     Eu não sou uma pessoa religiosa, mas compreendo e respeito que toda religião tenha seus dogmas. Aliás, o dogma é da essência da religião. Que eu saiba, entretanto, todos eles são muito antigos, geralmente inspirados na Bíblia, Corão, etc.,  como por exemplo, a existência da Trindade, do Céu e Inferno, ou a proibição de comer carne de porco, no caso de cristão e judeus, respectivamente, ou não reverenciar símbolos ou imagens, no caso dos muçulmanos.

      No caso da religião católica, o rito da Eucaristia é inspirado na cena da Última Ceia, na qual Jesus oferece o pão e vinho aos apóstolos, como símbolo de sua carne e sangue. A Igreja repete esse rito nas missas com a distribuição das hóstias. Apenas o padre toma o vinho, para evitar problemas, suponho.

    A novidade é que alguns sábados atrás (dia de repouso judaico), o Vaticano proibiu que as hóstias sejam fabricadas livres de glúten (http://veja.abril.com.br/saude/vaticano-proibe-hostias-sem-gluten/). É curioso, pois agora que a ciência descobriu que o glúten faz mal a celíacos e diversos fabricantes de alimentos oferecem a sua versão sem glúten, a oferta de hóstias sem glúten deveria ser recebida com bastante naturalidade, até mesmo para garantir o catolicismo dos alérgicos.

      Segundo informa a matéria linkada, as hóstias são oferecidas em supermercados e podem ser adquiridas pela internet e parece que há oferta de variações com mel, frutas e açúcar.  Não entendi a princípio porque um supermercado vende hóstias, até porque nunca vi a oferta em qualquer prateleira.

      Na verdade só estou escrevendo este texto meio distópico porque estudei em colégio de padres e via as noviças fabricarem as hóstias diariamente e colocá-las em bandejas no sol para secar. Houve até o caso de um colega meu de classe, seminarista, que não resistiu, e certo dia comeu uma bandejada daquelas, tendo como consequência que depois disso ninguém nunca mais ouviu falar dele.

     Sempre achei, assim, que cada paróquia tivesse uma beata encarregada dessa tarefa e foi com surpresa que vi que a coisa mudou para um regime industrial.

     De fato, o leitor, se quiser pode montar sua própria empresa de fabricação de hóstias. O SEBRAE ensina como fazer e dá a receita   (www.sebrae.com.br/sites/PortalSebrae/ideias/como-montar-uma-fabrica-de-hostias,e9e87a51b9105410VgnVCM1000003b74010aRCRD )

 As hóstias para celíacos são oferecidas em uma empresa, por importação (http://www.fabricadehostias.com.br/).

  Fiquei surpreso ao saber que em Minas Gerais, há outra empresa que produz 2 milhões de hóstias por dia (http://www.em.com.br/app/noticia/economia/2013/07/18/internas_economia,424466/fabrica-mineira-produz-2-milhoes-de-hostias-por-dia.shtml).

    O Vaticano, segundo a matéria, diz que fabricar hóstia sem glúten “pode gerar dúvida sobre sua procedência”. Também não entendi, mas acho irrelevante,  pois o produto tem que obedecer as normas dos art. 6°, inciso III e artigo 31, do Código de Defesa do Consumidor) e do Ministério da Saúde, indicando a sua composição química com precisão. Pelo menos aqui no Brasil.  E é bom lembrar que, até a consagração, a hóstia é apenas um pedaço de trigo cozido (pão sem levedura, composto apenas de farinha).

      Então por que o cisma com o glúten, se o Vaticano admite que a hóstia possa ser fabricada a partir de produtos geneticamente modificados? Logo a Igreja, que critica tanto os judeus por causa de suas manias alimentares de tradição milenar, agora recusa o auxílio da ciência da permitir que o devoto celíaco possa participar da Eucaristia.

      Parece tão evidente que o pão foi utilizado na Última Ceia como um símbolo da carne apenas, não como uma estrutura química  complexa. E não vai deixar de ser pão apenas porque o glúten foi extraído.

          Além do mais, parece estar fora de dúvida que a consagração da hóstia com a autoridade eclesiástica do padre a purifica de qualquer vício. É como achar que um corpo não deve ser cremado porque é necessário o esqueleto preservado para a Ressurreição.

      A Igreja Católica tem coisas mais importantes com que se preocupar do que com essas  ninharias.

 

 

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