NOSSOS DIREITOS HUMANOS PARA NOSSOS DESCENDENTES?

     Falar em Direitos Humanos hoje, é tratar de um tema tão essencial que só podemos escrever a expressão em letras maiúsculas. Parece-nos que os Direitos Humanos, tal como consagrados na Declaração Universal dos Direitos do Homem após a 2a. Guerra Mundial, e nos valores de Igualdade, Liberdade e Fraternidade são de uma evidência transcedental e representam o ápice do pensamento humano, que percorreu um longo caminho até esse amadurecimento culminante.

     Talvez não seja assim. Há menos de 150 ainda tínhamos escravos no Brasil; recuando alguns anos, a escravidão era algo baseado na supremacia racial em boa parte do mundo. Antes disso, ainda, pode-se dizer que a desigualdade constituía os pilares da maioria das sociedades antigas (a desigualdade, na verdade, ainda governa o planeta, em que pese a igualdade abstrata da DUDH). Em todos esses períodos, a noção de Direitos Humanos não existia e o que era uma verdade estabelecida durante séculos baseava-se em critérios muito diferentes, nos quais as palavras de ordem da Revolução Francesa não faziam o menor sentido. E certamente, pensava-se que aquelas também eram verdades naturais e eternas, baseadas em valores que hoje nos parecem repulsivos, como jus sanguinis, supremacia branca e direito da força.

   Se refletirmos um pouco, veremos que a desigualdade ainda é um critério de julgamento bastante comum em nossos dias.  Basta ver o que aconteceu em Charloteville, EUA, na semana passada. Os grupos neonazistas existem em todo lugar. O racismo continua sendo uma força poderosa. A fraternidade universal é ainda apenas uma bela expressão e tudo indica que é um conceito que não vai evoluir.

     É  possível que aquilo que pensamos acerca de Direitos Humanos hoje, amanhã seja uma curiosidade histórica. O futuro, nessa campo, está mais para a distopia do que para a utopia. É bem possível que, em 100 anos, o princípio da igualdade soe tão estranho como soou no passado.

     Contudo, o que vai definir o futuro dos Direitos Humanos não será o debate de ideias, e sim a tecnologia.

     Quem aborda essa importante questão é o historiador Yuval Noah Harari, em sua obra HOMO DEUS (Cia. das Letras, 2016), tema também abordado no seu livro Anterior SAPIENS (Cia das Letras, 2014). Segundo ele, o aumento exponencial da tecnologia nas próximas décadas, vai mudar o nosso panorama acerca desses direitos que hoje parecem tão solidificados. O aperfeiçoamento das máquinas e a sofisticação da inteligência artificial vão impactar diretamente nossos valores de uma forma que não podemos prever. Contudo – e considerando o aumento também exponencial da espécie humana – é bem possível que, no futuro, a história crie uma elite de poderosos muito ricos e grandes exércitos de seres humanos inúteis (useless).

     É claro que o autor expõe  essas ideias com consistência ao longo de boa parte do livro, aqui faço uma grosseira referência, apenas. O fato é que, num cenário assim, o conceitos atual  de Direitos Humanos pode sofrer uma drástica mutação. Uma afirmação tão solene como a de que todos os homens são iguais em direitos e obrigações talvez não faça sentido num futuro bem menos distante de nós do que do passado, quando ela também era incompreensível.

     É assustador para nós pensar que,  em cem anos, um juiz de direito (ou seja lá o que for que venha a exercer essa função) vá decidir com base em padrões culturais baseados em conceitos meramente pragmáticos, de utilidade ou inutilidade humana, e usar códigos que se baseiem na desigualdade entre homens e raças.

     Pode parecer absurdo que assim seja, mas é apenas porque ainda não vivemos no futuro.

     Essa é a abordagem de outro interessante título sobre o mesmo assunto, de autoria de  Chuck Klosterman, E SE ESTIVERMOS ERRADOS (Harper Collins, 2017), que inicia com a seguinte citação do romancista de ficção científica e autor de 2001 – Uma Odisséia no Espaço, Arthur Clarke, dita em 1964, tentando explicar como seria o mundo no ano 2.000:

Se o que eu digo agora soa racional para você, então terei fracassado completamente

     É provável que nós não estejamos vivos nesse futuro possível, e talvez seja bom que seja assim, pois ao menos não corremos o risco de experimentar uma mudança tão radical de nossos valores e aceitar isso como uma verdade natural e também eterna.

 

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