SUA EXCELÊNCIA, O SENADOR ROBERTO REQUIÃO

     O Senador Roberto Requião ficou sentido com a procuradora federal que pediu que Lula não a chamasse de “querida“.  Lula não fez por mal, mas a Procuradora não quis deixar  passar, talvez porque tenha interpretado de outra forma. O fato é que Roberto Requião, o relator da encomendada Lei do Abuso de Autoridade, sem que o acusado tenha lhe pedido, quer acabar com o tratamento de “excelência” dos membros do Judiciário (e do Ministério Público, por extensão) e diz que apresentou projeto de lei com esse propósito.

     Não deixa de ser curioso que justamente ele, que há anos recebe esse tratamento e o dispensa a seus colegas políticos, venha a se insurgir apenas agora contra essa tradição. E olhe que o sujeito recebe esse tratamento desde 1995 e nunca reclamou. São mais de 20 anos ininterruptos (!) e só hoje ele teve a iluminação para seu grandioso projeto que benefícios extraordinários trará à sociedade brasileira.

     É evidente que esse é um projeto destinado a entrar, se não para o anedotário do Senado, certamente para o cemitério de assuntos esquecidos, porque se for aprovado,  os políticos não vão saber como se tratar uns aos outros doravante, já que “excelência”, para eles, não passa de uma metáfora muito conveniente. Se fosse fazer uma sugestão seria a de que o projeto não apenas abolisse o tratamento de excelência, mas também o proibisse, para que os bois passassem a ser tratado pelos nomes. Acho até que passaria a assistir a TV Senado.

     O fato é que esse tipo de cretinice  é difícil engolir. É duro imaginar que pagamos uma fortuna para um senador e sua entourage mensalmente para que ele venha se ocupar de uma banalidade dessas. Se fosse por burrice, ainda se admitiria, azar do eleitor, mas não é o caso, o caso é de pura malícia. O homem nutre um ódio especial pelo Judiciário. Por que será? Isso é o tipo de coisa que não surge do nada.  Certamente há algum coelho nessa toca. Recentemente ele foi citado numa delação do ex-presidente da Transpetro, Sérgio Machado (http://www.fabiocampana.com.br/2017/04/requiao-foi-citado-em-delacao/), que lhe atribui dinheiro sujo da JBS, na operação Carne Fraca, de quem teria recebido 2,9 milhão, e mais 1,5 milhão através de operador do PMDB para sua campanha de 2014. É apenas uma delação mas dificilmente alguém é citado assim, do nada.

     O título de Excelência aos membros do Judiciário, como qualquer pessoa de boa-fé sabe,  é uma tradição que homenageia a Justiça e não a pessoa de carne e osso do juiz. É como o ritual de levantar-se à presença do magistrado (all rise, sobre o qual já escrevi aqui dois artigos – “O Erga Corpus de Taguatinga”). Podemos não praticá-lo, mas ele tem uma enorme tradição em todos os países da common law. Quem se interessar pelo assunto, consulte aquelas duas postagens.

 

     Pessoalmente, não me importo nem um pouco de não ser tratado de excelência, porque esse é um valor que diz mais sobre a pessoa que a mim se dirige do que a mim mesmo. E tampouco acho que ser tratado de senhor ou doutor seja desrespeitoso. O que me incomoda é que esse senador encarnou, além do papel de um pateta, o de menino de recados daquela turma famigerada que tem medo da 13a. Vara Federal de Curitiba, aquela onde, até mesmo o intrépido senador, se precisar, vai chamar o juiz de “Vossa Reverendíssima”, se achar que isso pode ajudá-lo. O que me incomoda é um senador da República com esse nível de fetichismo patológico pelo Judiciário.

 

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