MEU CONSELHEIRO É UM CAVALO

     Esta história, que parece literatura,  é real e aconteceu há vários anos numa comarca do extremo norte de Santa Catarina. Um cidadão foi acusado de tentativa de homicídio  de um vizinho da região rural do município. A confusão começou porque ele havia se desentendido com a vítima e mais tarde, foi a cavalo até a casa dela para tirar satisfações por causa da versão dos fatos que andavam circulando. Lá chegando, houve nova escaramuça verbal, em que o acusado acabou rudemente ofendido pelo vizinho. Entretanto, sem outra reação, montou em seu cavalo e afastou-se em direção a sua própria casa.

     No interrogatório, a partir desse ponto, ele relatou mais ou menos o seguinte: – “doutora, eu estava voltando pra casa e notei que o meu cavalo andava devagar, com a cabeça caída, como se estivesse ruminando coisa ruim. De repente, ele falou alguma coisa baixinho, que eu não ouvi direito e perguntei: o quê? E ele repetiu: – não acredito que vais deixar as coisas assim, faça-me o favor! Aí eu disse pra ele que eu também tinha dito umas verdades pro meu vizinho, ele mesmo tinha ouvido,  mas meu cavalo retrucou: – mas ele disse mais! disse cobras e lagartos de ti e além do mais, quem foi tirar satisfações foste tu! – Eu fiquei aborrecido do animal estar se metendo assim no assunto, mas disse que cada um xingou o outro e era caso encerrado, mas o meu cavalo não sossegava. Empacou, virou o pescoço para mim e me olhou com sangue nos olhos, doutora. Ele me acusou: – caso encerrado?  era só o que faltava! Tu és um moleirão, teu vizinho duvidou de tua macheza na frente da família,  xingou a tua mãe e te chamou… doutora, ele enfileirou todos os palavrões que ele tinha dito. Aí quando eu fui ouvindo aquilo, ainda mais do jeito que ele falava,  eu não aguentei, achei que o bicho tinha toda a razão, e eu tinha que defender a minha honra. Quando dei meia-volta, meu cavalinho saiu num galope louco como eu nunca vi em direção à casa do meu vizinho e quando eu cheguei lá descarreguei o meu revólver  na casa dele. A sorte que nenhum pegou.

    Como eu disse, parece mentira, mas é verdade. dizem que o cavalo, mais tarde, foi chamado a testemunhar, mas isso eu não posso garantir.

Um comentário sobre “MEU CONSELHEIRO É UM CAVALO

  1. Um bom conselheiro, um pangaré decidido e clarividente. E sorte do vizinho, porque parece que o pangaré tinha certeza que não o encontraria mais em casa. Daí o revólver de seu montador, carregado ou descarregado já não faria mais nenhuma diferença.

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