UMA CONVERSAÇÃO PIA

UMA CONVERSAÇÃO PIA

  Uma sessentona com os cabelos duros como arame e pintados de loiro,  uma cara severa de matrona, apoiada numa bengala, subiu no ônibus e abancou-se no primeiro assento destinado aos idosos. Na outra fila, ao lado, uma senhora octagenária toda enrugada e com os cabelinhos brancos e curtos, como é o costume das mulheres, estava sentada num banco individual. Elas se conheciam e se cumprimentaram.

    Então disse a loira:

– A senhora sabe que não vou mais lá, não é?

A velhinha entendeu e perguntou:

– Está difícil com esse teu problema na perna…

– Não é isso – sentenciou a loira.

    A velhinha, que burra não era, também pegou a coisa no ar:

– É por causa da diretoria nova, né?

– É isso aí, minha querida – retrucou a loira, feliz por ter recebido o alvará de língua solta – Desde que eles assumiram a coisa desandou de um jeito a não mais poder. A senhora acredita que até o coroinha foi dispensado, aquele menino? Isso não se faz, tadinho, a gente já via ele usando uma batina e agora é capaz de pegar desgosto pela igreja. Desmancharam o coral, onde é que já se viu uma missa sem um coralzinho entoando os cantos santos? Vieram para destruir aquilo que nós construímos em tantos anos. A nossa equipe da irmandade está se afastando, o padre não quer entrar em conflito com essa diretoria e está comendo na mão deles e daquela fulana.

– Na mão de quem? Perguntou a velhinha.

– Ora de quem havia de ser? Daquela mulher branca e magra, de cabelos preto que distribui a hóstia. Distribui a hóstia! como pode uma coisa dessas, minha querida. Na mão de quem, a senhora pergunta. Na mão daquela coisa ruim que não fala com ninguém e não se dá nem com a mãe dela.

– E olha que ela recebeu uma Graça – disse o cobrador que estava logo no banco de trás, entrando na conversa.

    A loira olhou para ele em sinal de aprovação e emendou: – recebeu uma Graça mas não adiantou de nada, meu filho. Eles pensam que eu só tenho aquilo, essa é boa, eu sou missionária, tenho outras paróquias para servir e levar a mensagem de Deus, louvado seja. A senhora decerto soube que a dona Rosa foi afastada da contabilidade da associação. Ela ficou tão abalada que nem está mais se confessando com o nosso padre, vai até Campinas para se confessar com o padre Edegar. Credo em cruz, eu digo, credo em cruz, bem que ela fez. Eu já estava achando mesmo que o nosso padre andava curioso demais. A senhora sabe lá o que é ser jogada assim numa cesta de roupa suja e ainda ter que comer a hóstia da mão daquela mulher branca como uma vela, com aqueles olhos de fogo? Deus que me perdoe, mas parece que a gente vai receber veneno e não o Corpo de Cristo. Tá tudo tomado, minha querida, longe de mim falar dos outros, mas esse pessoal nem parece cristão. O nosso cobrador aqui sabe muito bem do que eu estou falando.

– Tem gente lá devendo no armazém há mais de 3 meses e andando de carro pra baixo e pra cima – atalhou o cobrador. Nem o dízimo pagam, só botam uma nota de dez na sacola quando sabem que tem bastante gente olhando.

– É como eu digo – voltou a falar a loira – As coisas vão mal e não é de hoje. Demorou muito até, pra chegar na nossa paróquia. A senhora lembra, quando mocinha, que os papas faziam procissão em Roma antes da coroação. Era coisa linda, aquele padre que se metia na frente 3 vezes e acendia um pedaço de estopa numa bandeja de prata na frente do papa e falava uma coisa em latim pra ele não se esquecer…

Sisque em transe e gloria ao mundo – lembrou-se a velhinha.

– Isso, então a senhora bem se lembra. Hoje não tem mais isso, a fumaça branca já sai de primeira, a gente não tem expectativa de ver um fumo negro, aquele temor do mundo na escuridão sem o representante de Deus na terra. Como a gente orava em devoção. Agora o prato já vem feito e requentado, digo eu, porque já acertam tudo logo que o papa pega o primeiro resfriado. Deviam era eleger um vice-papa e pronto. Aí nunca mais precisava eleição de papa e as nossas preces a gente guarda pra outras necessidades.

– Olhe, minha amiga – prosseguiu a loira – eu ando pensando muito. Deus dá a graça e as pessoas é que sabem o que vão fazer com ela. No fim, todo mundo vai ser julgado. Eu, por mim, acho que tanto a graça quanto a desgraça fazem parte do Mistério, porque tem gente que não presta e vive recebendo graça e um mar de inocentes que é só desgraça em cima de desgraça, como uma pilha de tijolos. Mas quem somos nós pra entender a vontade divina. Só o Mistério pra consolar, de acordo com nossa doutrina. A gente até acha que Deus dá uma graça a um torto pra ver se ele se endireita, mas essa tempestade de desgraças na cabeça de meio mundo, só mesmo  a gente se agarrando em Jó, não é? Mas isso me maltrata também, querida. Por que Ele teve que matar os bois e as galinhas do crente e secar as plantações e encher o coitado e a família com todo tipo de praga? Quando eu penso nisso fico zonza, porque sou devota e não faço mal e nem falo mal dos outros e longe de mim duvidar. Mas, e se ele resolver me testar também e me jogar uma praga, como é que vai ser, eu pergunto pra senhora. Deus me livre. Se ele quebrasse as pernas daquela branca seca lá na paróquia, ou entrevasse ela de uma vez, a gente até entendia, mas jogar um monte de doença e câncer no rebanho que vai comungar e pagar o dízimo, faz favor, não é, amiga? Deus conhece meu coração e sabe que não digo por mal, mas não sei, amiga, parece que ninguém está a salvo. A senhora se lembra da dona Tilinha, que serviu 50 anos na paróquia, tocava o sino, fazia as hóstias, lavava a batina do padre, varria, era uma escrava do Senhor, tão santa quanto uma pia de água benta. Pois é, depois de tudo, pegou um câncer que foi comendo ela por dentro devargazinho durante três anos, roendo ela até os ossinhos e ela rezando e rezando, até morrer com os olhos esbugalhados…

     A velhinha torcia as mãos.

– Ela está no Paraíso, Louvado seja.

    Como se não escutasse, a loira prosseguiu – enquanto isso, aquela magra ruim recebeu uma Graça e continua má como a serpente. São dois exemplos na mesma paróquia, amiga. Dois. Vá entender! Parece que as encomendas vieram com os destinatários errados. A dona Tilinha merecia ser morta com um raio ou que uma caçamba passasse por cima da cabeça dela. Plof, ela nem sentia. Às vezes, penso que as pessoas vão até lá pra ver se escapam das desgraças, mas chegam lá e o que vem? A dona Tilinha pesando 35 quilos e ainda pendurada no sino e a outra lá, que só falta jogar a hóstia na cara da gente, com um marido novo, cheio do dinheiro e que ainda aceitou criar os dois filhos do outro, que ela matou de desgosto. Todo mundo já dava ela como morta e ela se levanta como Lázaro e passa pela gente sem dar bom dia ou boa tarde.

– Não fale assim, minha querida – disse a velhinha ansiosa – que isso aumenta a minha pressão e o doutor me disse que se estourar uma veia na minha cabeça eu vou ficar como morta no fundo de uma cama.

– Pois aí é que está a coisa – retrucou a loira, cada vez mais empolgada – Aí é que está! É isso o que estou falando. A senhora serve a Igreja há tanto tempo quanto a dona Tilinha e olha só, de repente, salta uma desgraça e a senhora não vai conseguir nem fazer as suas necessidades, vai comer por um tubo na garganta e respirar por outro, sabe-se lá por quantos anos, no último cantinho da UTI, usando uma fralda geriátrica que os enfermeiros vão ter nojo de trocar a cada 3 dias. Um estorvo para a família, que vai rezar pela sua morte, a senhora sabe como são essas coisas.

– Ai, querida – balbuciou a velhinha – me esqueci de uma coisa em casa, que cabeça a minha. Motorista, pare logo aqui que preciso descer, pelo amor de Deus.

– Deus te abençoe, amiga.

– Vá com Deus – disse o cobrador.

     A velhinha levantou-se depressa antes que o ônibus parasse e na freada, atravessou a catraca como uma bala e esborrachou-se no para-brisas, quebrando os dentes da frente, tão branquinhos e que eram o orgulho de sua velhice.

3 comentários sobre “UMA CONVERSAÇÃO PIA

  1. Eu venho me decepcionando com as pessoas não é de hoje, já fui mais bobo, hoje aos 40 anos eu tento ser um melhor observador, mas, confesso que é muito difícil, pessoas mentem o tempo todo, já tive amigos de repartição que ninguém desconfiava e descobrimos que era corrupto, já tive empregados que eu fazia de tudo por eles e achava que eram meus amigos e descobri que estavam me roubando, e hoje vemos casos de estupradores e abusadores de crianças que eram pessoas acima de qualquer suspeita, e aí, o que fazer?
    Eu fui criado na igreja e após os 25 anos fui me tornando Agnóstico especialmente frente ao conhecimento do direito que me tornou mais racional. Eu sinto em ver que muitos religiosos deixam de fazer o mal apenas por medo de castigo divino e não por empatia, piedade, compaixão, que são os sentimentos que me movem a não fazer o mal. Sempre lembro da aula de filosofia do direito sobre o mito do anel de giges de Platão, esse mito diz muito sobre o homem e sua obscuridade inata que só é diminuida com o conhecimento, não à toa também chamada de “luz”.

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