O ASCENSORISTA

     Um ascensorista sempre me lembra um cabo de vassoura, cuja utilidade é vital para ajeitarmos um varal de cortina quando não temos uma cadeira à disposição. Ambos funcionam com extensores de nossos braços, com a diferença que os botões do elevador ficam à pouca distância de um ligeiro movimento de elevação de nosso braço. Em situações assim, o cabo de vassoura cumpre bem melhor sua função como uma extensão da vassoura propriamente dita, se é que se pode dizer que uma vassoura exista sem o seu cabo. Além disso, você não precisa falar com o cabo de vassoura, apenas vai lá e o usa em silêncio, ao contrário do ascensorista, que primeiro vai lhe surpreender com sua aparição sentado num banquinho, bloqueando a sua iniciativa de se dirigir ao que ele considera o seu “painel de comando” e vai lhe perguntar mecanicamente o andar que você deseja, aguardará a resposta e colocará o elevador em movimento e em seguida permanecerá em silêncio, sem dar a mínima para a sua presença naquele apertado habitáculo, até o final da sua curta viagem, quando você, é provável, vai ter que dizer um obrigado. Obrigado, mas por que, exatamente? Estivemos diante de uma pessoa sem existência funcional, um trabalhador “useless”, como dizem os americanos e cuja presença, na verdade, pode até nos causar um certo constrangimento, pelo menos em mim. Talvez agradecer por uma ocupação como essa ainda existir. Há cem anos  essa atividade envolvia um pequeno conhecimento técnico, como abrir e fechar a porta da gaiola, apertar o botão, girar aquela manivela e repetir a operação a cada parada. Hoje, uma criança de três anos faria misérias naquele painel. Esse anacronismo simbólico e decadente de tempos que não voltarão, é, ao mesmo tempo, a prova viva de que apesar de todas as previsões pessimistas, há profissões que ainda se recusam a desaparecer. Possivelmente, é a profissão menos especializada do mundo e confesso que me surpreendi ao constatar que no Código Brasileiro de Ocupações (CBO), do Ministério do Trabalho, está lá, no Título 5141.1, a profissão de ascensorista, ou cabineiro de elevador. A sua existência clássica sempre esteve ligada, sem dúvida, a uma deferência servil, como uma especialidade da casa no seu bufê de serviços para quem procura mordomias em hoteis, que deixam claro que ele lá está uniformizado ao seu dispor só para lhe lembrar que tudo tem um preço.

     Pois nós temos um ascensorista no tribunal, no nosso pequeno elevador privativo. Aliás, é um elevador tão privativo que três pessoas já ficam desconfortáveis dentro dele, mas compreendo que se fosse do tamanho dos elevadores comuns não seria digno chamá-lo de privativo. O que quero dizer é que, se uma privada tivesse vinte metros quadrados, não faria sentido chamá-la de privada.  O nosso ascensorista está lá há tantos anos que duvido que alguém se lembre como ele foi parar ali. Há mesmo uma porção de coisas por ali que ninguém é capaz de lembrar-se como começaram, de forma que todos preferem dizer que “fazem parte da tradição”. Eu desconfio de tradições porque nos impõem o fato consumado cheio de sacralidade, mesmo que a coisa toda seja uma besteira e só continue lá porque ninguém ache que vale a pena tocar no assunto. O fato é que os outros elevadores não tem esse privilégio muito discutível, o que só serve para aumentar minha desconfiança na tradição.  A popósito,  faz alguns dias me surpreendi ao saber que o reitor de Universidade precisa ter o grau de doutorado. Quanta estupidez, mas vai ver é por isso que são chamados de “magníficos”, embora toda essa majestade não elimine o simples fato de que o reitor vai passar seu mandato autorizando compra de materiais e presidindo reuniões intermináveis. A mim parece muito mais razoável suprimir a honraria do título e dispensar o gasto de dinheiro público com um título que não vai servir para nada em coisa mais proveitosa.  Mais ou menos como juízes doutores, que deixam de exercer suas atividades para passar temporadas no exterior e depois voltam com seus diplomas importantes para … julgarem ações de despejo e de alimentos. A diferença é que o doutorado na magistratura não é obrigatório (e nem será), porque acirra muito a concorrência por aulas noturnas. Apesar disso, um tribunal aí bem que tentou criar uma vantagem salarial por curso de pós-graduação e se não fosse o CNJ a coisa talvez tivesse se espalhado. Acho que deveríamos deixar os doutourados para os causídicos, pois assim poderíamos ver um pouco de graça na nossa atividade, com todo aquele espetáculo da academia e suas teses acrobáticas e vertiginosas.

     Enquanto isso, o nosso ascensorista está esperando, mas não estou sendo rude, pois ele passa mesmo a maior parte do tempo sentado solitário na frente de uma pequenina mesa branca, perdido e inútil, à beira da senilidade, aguardando, apático, que alguém lhe reclame os serviços. Tenho certeza de que a aparência dele é alimentada tanto por essa paralisia quanto pelo automatismo sonâmbulo das suas funções. Dá até a impressão, tão vagarosos são os seus movimentos, que há algum botão nele que precisamos apertar para despertá-lo daquela letargia. Posso muito bem pegar um elevador comum, mas acho um pecado não me valer dos serviços daquele homem. Estou convencido de que ele precisa da sensação de utilidade. De vez em quando, ao entrar nesse elevador prático, por instinto movo meu dedo indicador em direção ao painel, mas a tempo de me recuperar e deixar essa tarefa para ele, pois não serei eu quem vai fazer dele um passageiro da minha própria viagem.

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