O DANO MORAL, SEGUNDO MR. CHESTERTON

 

     Todos sabemos que o dano moral é uma experiência predominantemente subjetiva, mesmo que já se tenham tarifado algumas situações da vida como configuradoras desse evento (mesmo que ele não exista, é sempre oportuno ressalvar). De modo que podemos dizer mesmo que o dano é uma experiência pessoal e há várias maneiras de lidar com acontecimentos que nos atingem. Depende de cada um de nós, de nosso momento e das circunstâncias.

     O romancista inglês, G. K. Chesterton, autor de vasta obra literária produzida no final do século XIX e início do século XX, nos dá uma grandiosa demonstração de como tratar com eventos desagradáveis e incômodos que vale a pena conhecer:

     “William III morreu por tropeçar em uma toca de toupeira; não creio que com todas as suas diversas habilidades eleconseguisse tropeçar em uma montanha. Mas, levando tudo isso em consideração, repito que podemos pedir a um homem feliz (não William II) que suporte o que pura inconveniência, e até faça dela parte de sua felicidade. Não me refiro aqui à dor objetiva ou à pobreza objetiva. Refiro-me àquelas inúmeras limitações acidentais que estão sempre cruzando nosso caminho – mau tempo, confinamento a esta ou aquela casa ou aposento, desencontros, esperas em estações de trem, extravios de correspondência, deparar-se com a falta de pontualidade quando quereríamos pontualidade, ou, o que é pior, encontrar pontualidade onde não a queríamos. É sobre os prazeres poéticos que podem ser tirados de todas essas coisas que eu canto – canto com confiança, pois recentemente experimentei os prazeres poéticos que surgem de ter que sentar-se em uma cadeira por causa de uma torção no pé, sendo a única alternativa ficar em uma só perna como uma cegonha – uma cegonha é até uma imagem poética: portanto, adotei-a avidamente.

     Para apreciar qualquer coisa, devemos sempre isolá-la, mesmo se a coisa em si significa algo diferente do isolamento. Se desejamos ver o que uma casa é, deve tratar-se de uma casa em alguma paisagem desabitada. …durante estes poucos dias em que estou equilibrado de forma desigual, o desemparo ou deslocamento de uma perna poderá ser compensado pela espantosa força e pela beleza clássica da outra.”

(“As vantagens de ter uma perna”, em “Tremendas Trivialidades”, ed. Ecclesiae, trad. Mateus Leite, ed. digital Kindle).

     Fico imaginando o que diria Mr. Chesterton se imaginasse que quase um século depois os cidadãos estariam indo a juízo para pleitear indenizações por dano moral por ter (a) adquirido um suco de laranja e ter descoberto que era de maça também(b) por ter comprado um botijão de plástico de 5 litros e ter apurado que era só de 4;  (c) por ter esperado numa fila de banco por mais de 15 minutos; (d) por terem descolado as lantejoulas de uma fantasia de 99 reais; (e) pela compra de uma meia que desfiou (f) por ter o nome de Juvenal, objeto de um comercial da Sadia(g) por ter sido cobrado indevidamente em 2 reais no estacionamento da zona azul(h) porque uma coca-cola estava com um gosto estranho;   (i)  por ter servido os salgadinhos do aniversário com temperatura não adequada; (j) por bolo de festa servido em bandeja comum e não de prata (com o detalhe que não sobrou nenhum farelo para contar a história), etc.  Esses são alguns exemplos dos Juizados Especiais de Santa Catarina, onde, nem é preciso dizer, mas é bom não esquecer, não existem custas processuais e nem condenação em honorários advocatícios.

     Acredito que essas fantasias soberbas estimulariam sua imaginação e ele escreveria uma crônica bem humorada sobre cada um desses casos e os situaria num país imaginário chamado Confederação dos Estados Unidos do Brazil.

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s