O PEDIDO LIBERTENSE

     Um colega hoje de plantão, mandou-me uma foto de um trecho de uma petição em que o advogado falava em pedido libertense. Inicialmente, mas só por um breve momento, pensei que se tratasse do município de Minas Gerais, mas, é claro, vindo da nova advocacia, só podia ser um pedido de liberdade, ou seja, um Habeas Corpus.

       Para esse causídico da vida real,  serviria muito bem o que disse “o alferes Pistol, a quem seu amigo Falstaff certa vez bradou, perdendo a paciência: Diga o que tem a dizer como uma  pessoa deste mundo!” (Shakeaspere, Henrique IV, em Schopenhauer, “A Arte de Escrever”, L&PM, 2005, trad. Pedro Süssekind). Como diz o filósofo, o “ininteligível é parente do insensato” e que “quando lemos, outra pessoa pensa por nós.” (op. cit.). Deve ser por isso que, como juiz, numa boa parte do dia não consigo me entender com meus pensamentos.

     Não vamos, todavia, adotar a postura pessimista do filósofo alemão. A nova advocacia também pode nos divertir bastante e quem ousaria duvidar que um pedido libertense  é o sal da terra? Que venham, e virão cada vez mais. Como diz o ditado, antes um pedido libertense na mão do que dois recursos predatórios na distribuição.

     Em tempo, devo acrescentar que não sei se meu colega determinou o expedimento do alvarense de solturação.

4 comentários sobre “O PEDIDO LIBERTENSE

  1. ora o direito se presta à predicados e adjetivos, logo plausível a origem do pedido a Liberdade, direito natural de cada ser! logo é preciso olhar com interpretação de poeta para a peça libertense.

    • Boa tarde. Respondi a você, mas acho que errei a remessa. Seu ponto foi bem colocado. Aprecio a liberdade de estilo, a argúcia, a frase de efeito, a licença poética, a simplicidade e qualquer outro recurso linguístico apropriado. Mas não considero “libertense” válido. A mim, parece uma tentativa de fazer do direito uma ciência hermética, cuja linguagem sofisticada só pode ser entendida pelos iniciados. Ao direito, a clareza vernacular. A sofisticação fica com os conceitos jurídicos. Tenho um texto intitulado “Lima Barreto e o Juridiquês” que ilustra isso. Também tenho inúmeros artigos criticando os neologismos inúteis, a linguagem objetiva e o juridiquês. Hoje, por exemplo, li numa petição: “solução prefeitural” O que pensar de algo assim?
      Obrigado por sua leitura.

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