TENTATIVA DE LACTICÍNIO

     Em petição protocolada em comarca de Santa Catarina, um advogado escreveu que era dever do Estado proteger seu cliente – proprietário de um pequeno comércio varejista –  de violência “cometida por elemento que consumou tentativa de lacticínio contra o estabelecimento comercial”. Poderia ser um equívoco, se ele não repetisse no parágrafo seguinte que a tentativa de lacticínio realmente ocorreu.

     Dei-me ao trabalho de escrever latrocínio no editor de texto para conferir se o corretor automático operava a transformação, o que não aconteceu.

    Afinal, então,  o ladrão queria roubar caixas de leite do estabelecimento ou algum outro fermentado lácteo?

      Curioso para elucidar a dúvida, li toda a página da petição, e notei que o causídico utilizou inúmera vezes os tempos verbais e não incorreu no uso do pretérito-mais-que-perfeito, meme preferido da nova advocacia (o famoso “fora”, ao invés do simples “foi”, a conjugação do pretérito-perfeito).  Isso me deu a convicção de que se tratava de um velho advogado que conhece verbos e que deve rascunhar  à mão suas petições e depois a secretária digita.

     Sempre sobra para a secretária.

     A propósito: não fora o descuido dela o erro não teria acontecido, ou não fosse o descuido dela o erro não teria acontecido?

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