A MULHER QUE ESGANA COBRAS

Uma tia de minha mulher adora enganar cobras com as mãos nuas. Ninguém sabe como essa mania começou, exceto ela. A primeira foto que vi dela era da década de 90, deitada numa praia de rio, sorrindo ao lado de uma sucuri de seu tamanho esticada e com a garganta arrebentada ao seu lado. Naquela época achei apenas uma foto de mau gosto, mas nesta semana conheci a mulher pessoalmente. Devo dizer que, pela sua aparência encantadora e seu jeito de falar amoroso, é difícil acreditar no que ela me contou, assegurando-me que eram os casos que lhe vieram à memória durante nossa conversação.

A PRIMEIRA COBRA

Ela só me relatou quatro encontros. O primeiro foi esse. A sucuri surgiu no rio onde as pessoas se banhavam e uns bombeiros vieram para liquidar o bicho. Quando a cobra já estava agonizando, ele pediu licença e agarrou o animal pela garganta até esganá-lo. Depois, de maiô e feliz da vida, deitou-se na areia e tirou aquela foto.

A SEGUNDA COBRA

Essa também foi uma sucuri. A tia e o marido estavam viajando de carro e ela viu, ao longe, no asfalto, o brilho do corpo da cobra atravessando a pista em toda a sua largura. Era um animal enorme. Então pediu: “acelera, que Deus é grande e vai que dá tempo de passar por cima.” À medida que se aproximaram, ela percebeu que a cobra havia engolido algum animal grande e estava estufada procurando um lugar para fazer a digestão em paz. O carro passou sobre ela como se estivesse cruzando uma lombada. Logo depois, a tia desceu e foi se encontrar com o bicho. Pegou-o pelo grosso pescoço e sacudiu-o com gana e bateu com sua cabeça no asfalto repetidas vezes. Não satisfeita, voltou ao carro, pegou a garrafa térmica do chimarrão e despejou água fervente na cabeça do animal, que, segundo ela, pulou um metro de altura antes de finalmente, morrer.

A TERCEIRA COBRA

Seu próximo encontro foi numa caminhada perto de um pasto. A certa altura topou com uma cobra de espécie não identificada, que estava enrolada à beira do caminho. Ela parou, achou a cobra deprimida e pensou consigo mesma:”ah, se estavas querendo acabar com a tua vida, encontraste a pessoa certa!”. Em seguida, pegou um pedaço de pau e quebrou o bicho a cacetadas. Aí, quando a cobra estertorava, com sangue pelas narinas e pela boca, pegou-a com as mãos e estrangulou-a.

A QUARTA

Esse incidente aconteceu há pouco tempo. Uma cobra pequena, escura, passou na sua frente e ela se abaixou para esmagar sua garganta com apenas uma mão, quando seu filho gritou que não fizesse isso que a cobra podia ser venenosa. E era uma jararaca pequena. A contra-gosto, ela então apenas esmagou-lhe a cabeça com o sapato, enquanto o rabo se enroscava alucinado em sua canela.

No fim, ela me disse que gosta de esmagar cobras com as mãos porque tem uma dentro dela que não consegue matar, mas nossa conversa parou por aí.

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s