HIT THE ROAD, SON – OU O CASO DO FILHO-CANGURU

     Com essa manchete, parodiando a música de Ray Charles (Hit the Road, Jack), a agência Reuters noticiou no dia de hoje a decisão de juiz da Suprema Corte do Estado de Nova Yorque – ao que parece, o órgão com competência originária para apreciar o caso – que determinou a expedição de uma ordem de despejo do lar paterno do filho de 30 anos do casal, um sujeito que voltara a viver na casa dos pais há 08 anos, e nunca trabalhou desde então, não ajudava na manutenção da casa e nem nas tarefas domésticas. O ambiente familiar devia estar muito carregado, pois os pais do  cidadão enviaram-lhe 06 notificações por escrito para que abandonasse a casa e inclusive ofereceram-lhe dinheiro (U$ 1.100,00) para que se virasse nos primeiros tempos (https://www.reuters.com/article/us-new-york-eviction/hit-the-road-son-parents-win-court-battle-to-evict-30-year-old-idUSKCN1IO28F) .A notícia viralizou. Um psicólogo amigo meu acrescentou que esse é o famoso caso do filho-canguru, metáfora que dispensa explicações.

     O caso, que eu saiba, nunca aconteceu entre nós, quer dizer, não a existência do filho-canguru, figura muito conhecida, mas o fato de  pais tomarem a iniciativa de judicializarem uma questão dessa natureza. Isso geralmente integra as lamentações noturnas no quarto do casal e fica por aí.

     A decisão, embora possa parecer chocante à primeira vista e mostrar pais impiedosos e uma justiça implacável, pode ter uma abordagem racional. Em primeiro lugar, do ponto de vista jurídico, a obrigação de prestar alimentos aos filhos pelos genitores, encerra-se com a maioridade ou o fim do curso universitário. As obrigações alimentares destinam-se a cobrir as despesas de subsistência, dentre elas a habitação e alimentação. A partir de um momento da vida do filho, essa obrigação naturalmente cessa, pois espera-se que ele próprio busque os meios de sua própria sobrevivência. É o caminho natural das coisas. Um filho de 30 anos, saudável, desempregado acomodadamente há 08 anos, não tem direito a alimentos, ou seja, não faz jus a verbas que lhe garantam a alimentação e moradia. Se Michael Rotondo (esse o nome do filho) não vivesse com seus pais, nenhum juiz lhe daria alimentos. A inovação do caso é que Michael residia com seus pais, mas isso não altera o argumento. Talvez se possa argumentar que onde comem dois, comem três, e que se há um quarto vazio não há mal nenhum em ocupá-lo. Aliás, esse é o argumento do Michael. Entretanto, esse argumento é um argumento católico, e a sociedade americana é fortemente marcada por valores protestantes, onde o trabalho do homem não só é uma questão que integra essa ética, como ocupa nela um lugar central. Uma colega minha que foi juíza na comarca de Pomerode/SC, de colonização alemã, relatou-me que nas famílias (também de confissão luterana) há uma espécie de consenso, no qual o filho maior que permanece em casa tem que pagar uma soma aos pais para auxiliar nas despesas. É algo que não se discute.

     Portanto, tanto sob a ótica jurídica quanto sob a social, os pais do marmanjo tem justificação para exigir sua saída do lar, dadas as condições do caso concreto.

     É de se ver, também, que os pais, assim agindo,  não estão excluindo o filho do sistema familiar, como objetivamente pode parecer; pelo contrário, sua intenção é a de estimular o filho a enfrentar a vida como um adulto que é, que atinja sua plenitude como homem encarando as vicissitudes que encontrar pelo caminho, amadureça com o sentido da realidade. Estão expulsando o filho porque o amam e não porque o rejeitam. O que os pais de Michael desejam é ser avós, afinal, esse é o ciclo natural da vida, mas para isso, seu filho tem que casar. E que mulher vai se interessar por um fracassado de carteirinha que aos 30 anos ainda não arrumou um emprego?

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s