“O FREIO DA RAZÃO NA BOCA DO CAVALO DA CRENÇA”

O psicólogo e cientista Michael Shermer, em sua obra “Cérebro e Crença”,  assim se expressa:

“A maioria das pessoas, na maior parte do tempo, chega a suas crenças por uma grande variedade de razões, que incluem personalidade e temperamento, dinâmica familiar e ambiente cultural, pais e irmãos, amigos e professores, educação e livros, mentores e heróis e diversas experiências de vida, das quais poucas tem alguma relação com a inteligência. … Não é só assim que construímos nossas crenças. O que acontece é que os fatos são filtrados por nosso cérebro através das lentes coloridas de visões de mundo, paradigmas, teorias, hipóteses, conjecturas, pistas, tendências e preconceitos que se acumulam durante a vida. Entre todos os fatos, selecionamos os que confirmem aquilo em que já creditamos e ignoramos ou afastamos mediante uma racionalização os que contradizem nossas crenças... O freio da razão está na boca do cavalo da crença. As rédeas puxam e dirigem, seduzem e persuadem, afagam e instigam, mas no fim das contas o cavalo seguirá seu caminho natural.” Cérebro e Crença, 1ª ed.JSN Editora, SP – versão eletrônica, capítulo “O freio da razão na boca do cavalo”.

          Estou escrevendo isso porque ontem, um desembargador plantonista do TRF4, concedeu um Habeas Corpus extrapolando de forma flagrante não só a sua competência, como agiu de caso pensado ao ter como “fato novo” algo que é do conhecimento de todo brasileiro há vários meses. O desembargador Favreto, entretanto, não foi vítima de seu sistema de crenças, mas a sua decisão contribui para o fortalecimento das crenças de milhares de pessoas, inclusive intelectuais, de que o favorecido por aquela decisão é uma vítima de perseguição do judiciário. Isso acontece porque é da natureza das crenças a racionalização e uma forma poderosa de expressar essa racionalização é através da construção de narrativas. Quando a razão de uma pessoa é sequestrada por suas crenças, pouco importa quão inteligente ela seja, ela vai selecionar a narrativa que reforça essas crenças e vai reproduzi-la nas suas relações pessoais e sociais.

          Tenho um bom amigo que me disse que o sistema judiciário brasileiro é visto internacionalmente como uma farsa. Não é que o sistema seja uma farsa em si, que esteja corrompido em todos os níveis e que não haja justiça no Brasil, apenas caos e imprevisibilidade. Não se trata disso. A generalização é por conta da condenação e prisão de um ex-presidente. A afirmação dele não se apoia em nenhum dado empírico, pelo contrário, expressa e confirma tão somente a narrativa (a racionalização das crenças) construída e que precisa ser sustentada. Se esse amigo fosse buscar elementos concretos acerca do funcionamento de nosso sistema de justiça, constataria que tanto a Corte Interamericana dos Direitos Humanos quanto a ONU já se pronunciaram sobre a efetiva garantia dos direitos constitucionais de ampla defesa aplicados no caso e que essa história de farsa judiciária não passa de uma fantasia ingênua. Todavia, quem está preso num sistema de crenças, está obrigado a mantê-la contra todo e qualquer dado da experiência. Se o acusado confessasse ser corrupto, a narrativa rapidamente se amoldaria  a uma nova contextualização, porque, por trás delas existe um profundo sistema de crenças. Isso se repetiria ad nauseam.

          A narrativa da farsa do nosso sistema judiciário aproveita-se da fragilidade do STF, um tribunal fragmentado e desmoralizado e com uma 2ª. Turma que decide arbitrariamente, desrespeitando decisões do plenário, nas quais seus membros ficaram vencidos. É uma tragédia jurídica, para quem tem formação específica. Isso tem forçado a uma constante fluidez na narrativa: Gilmar Mendes, outrora algoz, hoje é herói e esperança. É mais ou menos o conceito explorado por Daniel Khaneman, do eu da narrativa,  que pega o pior momento vivenciado, soma com o momento final e faz a média.  Assim, o ministro, hoje, é considerado abertamente um “aliado”, porque mudou de opinião, tornou-se crítico das prisões após condenação em 2º Grau, da Operação Lava-Jato, das prisões preventivas alongadas, das algemas, das conduções coercitivas e é pródigo subscritor de alvarás de soltura. É assim que tomamos nossas decisões, já que o eu da narrativa ignora aquilo que é vivenciado pelo eu da experiência e domina o hemisfério da racionalidade de nosso cérebro. O problema é que está cientificamente provado que o eu da narrativa geralmente nos leva a tomar as decisões erradas. (Rápido e Devagar: Duas formas de Pensar). Isso se vê muito no cinema, é um recurso bastante explorado: o bandido, ao longo do filme, pratica uma série de atrocidades, obtém a antipatia do espectador, mas nas últimas cenas, acaba mostrando um lado humano e, subitamente, mostramos a ele nosso reconhecimento e simpatia, não é assim? Mas isso não elimina o fato de que ele é o bandido que todos nós vimos durante quase toda a projeção, mas não levamos mais isso em consideração.

          Quando me perguntam se Lula é culpado ou inocente, sempre respondo que não sei. Não instrui o processo e nem conheço as provas. Mas tenho que confiar no juízo de valor do magistrado que o julgou, porque é isso o que faço diariamente, examinar provas e julgar. Tenho que acreditar que uma sentença que versa sobre fatos e é confirmada por unanimidade em 2º Grau está repleta de consistência jurídica. Essa é uma decisão guiada pela minha razão. Reexaminar sentenças é, hoje, minha função. Se eu não acreditar na justeza daquelas decisões, não acreditarei naquilo que eu mesmo faço e tenho que supor que todos os juízes que julgaram o ex-presidente são venais e eu também.

          Entretanto, eu creio que Lula é culpado, mas isso é um juízo de valor íntimo e precário, formado com base em noticiários que se acumularam ao longo dos últimos tempos e essa minha impressão pode muito bem ser contestada por qualquer pessoa. De fato, muitas pessoas crêem que ele é inocente, o que é perfeitamente legítimo. O que não está bem é permitir que aquilo em que se crê sequestre a nossa razão e esse cavalo de crenças saia por aí pulando cercas.

 

 

 

 

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