SERVIÇOS PÓSTUMOS

SERVIÇOS PÓSTUMOS

 

O homem parou um instante e leu a placa na frente da  casa: “Serviços Póstumos”. Que curioso, pensou, que afetação! Um desavisado não saberia o que pensar desse estabelecimento, que mais parece um escritório de contabilidade. Alguém poderia pensar em fazer uma retificação póstuma do seu imposto de renda, talvez. Mas em seguida reconheceu que tinha uma certa elegância, um verniz de nobreza numa atividade tão sórdida. A fachada era luminosa, envidraçada e convidativa. Subiu decidido os degraus no meio do gramado. Assim que abriu a porta que emitiu um som musical lento, o comerciante que lia o jornal levantou-se e indagou em que poderia ser útil.

-Não estou bem certo ainda – respondeu o homem – primeiro necessito que o senhor me explique o que, exatamente, são os serviços póstumos que oferece.

– Pois não – disse o comerciante – aceitaria um cafezinho? Nosso café é negro como a morte.

– Imagino que isso deveria ser uma espécie de trocadilho como a postumidade, digamos – replicou o homem – certamente o senhor deve ter conhecer muitas histórias…

– Sim, por certo. Nossos serviços são post-mortem, por óbvio. Nosso cardápio vai da remoção do corpo até as missas posteriores, tantas quantos a clientela exigir. Em alguns casos, são até mesmo anthume, como dizem os franceses – ah, esse franceses, não perderam a oportunidade de inventar um antônimo para posthume – mas verdade seja dita, em assunto de morte e pompas fúnebres, são inigualáveis, meu senhor. Mas como dizia,  há clientes que nos procuram com o moribundo ainda tomando um banhozinho de sol e certa ocasião, há uns cinco anos, o próprio moribundus, já nas últimas, não querendo incomodar ninguém, aqui esteve e tratou de todos os detalhes e nos entregou até o discurso em envelope fechado que o diácono deveria ler antes de ser fechado o caixão. A coisa foi tão inusitada que até eu recebi um convite especial para o velório, e cavalheiro, foi um espetáculo. O diácono, ao receber previamente uma nota de cem, nem se preocupou com o conteúdo da despedida e quando começou a ler na pequena sala lotada, não havia mais o que remendar. Era um vendaval de injúrias. O diácono, desorientado e surpreso, ainda perguntou se não tinha certeza se deveria continuar a ler, mas alguém lá do fundo, retrucou “agora que começaste vai até o final, infeliz”. O defunto excomungou todos os presentes, a parentela inteira, os falsos amigos presentes e ausentes, lançou maldições a torto e a direito, relatou podres que conhecia e inventou outros, deu nomes aos bois, cavalheiro, e terminou agradecendo a leitura e a atenção de todos, avisando o diácono que a cédula que lhe entregaram era falsa. Uma velha surda como uma porta, freguesa de muitos velórios, interpretando as seguidas pausas e olhares do diácono, repetia “é verdade, é verdade, bendito seja”, balançando a cabecinha branca. Devo dizer que no meio da leitura alguns caíram na gargalhada, senhor, o que só serviu para provocar maior constrangimento. A viúva ainda tentou remendar dizendo que seu marido não estava bem das faculdades mentais, mas uma solteirona retrucou dizendo que muita coisa do que ela ouviu ali era a mais pura verdade e foi o que bastou para um outro replicar que estava explicado porque ela nunca tinha arranjado marido. A coisa saiu dos eixos. Houve troca de insultos e acusações generalizadas, gritos e ranger de dentes. Depois houve uma debandada geral, é claro, como se o defunto tivesse pegado fogo. Foi um velório de matar, senhor, e o prato principal estava ali, esfriando dentro do caixão.  Não preciso acrescentar que o enterro foi testemunhado apenas pelos coveiros, nossos terceirizados, que cumpriram sua obrigação com galhardia. A pedra de toque foi a inscrição na lápide, uma zombaria alemã: “Tudo tem um fim, menos a salsicha, que tem dois.” Bem apropriado, na verdade, esse toque culinário. Mas só piorou as coisas, a administração do cemitério achou que era um deboche e foi necessário que o advogado do morto ingressasse com um interdito proibitório para garantir o livre direito de expressão, imagine só.  Afinal, vivemos numa democracia e era só o que faltava o finado não poder escolher seu próprio epitáfio. Enfim, cavalheiro, é apenas uma história entre muitas. Estou sendo útil?

 – Sem dúvida, senhor – respondeu o homem – mas ainda permanecendo no caso, o cidadão deve ter pago por serviços de primeira classe, a sua casa comercial não deixaria por menos, a julgar pelo que ouvi.

O comerciante gostava tanto daquela história, que lhe granjeava notoriedade, que não se furtou a responder:

 –  Nem tanto, senhor, nem tanto. Ele não quis fazer muitas despesas, porque lembro-me que se referiu a si mesmo como apenas uma carcaça velha. Foi uma transação bastante modesta, na verdade, o mínimo que a decência permitia. Digamos que, em vez de escolher o prato da casa, pediu apenas batatas fritas– e fez um gesto com a mão no peito, sorrindo – mas nos pagou com dinheiro autêntico.

– Interessante, senhor, bastante interessante, eu tenho aqui no bolso uma carta que me foi enviada há mais de cinco anos, com instruções para me ser entregue apenas agora, dias atrás, e vim até a sua cidade. Foi remetida pelo finado a este sobrinho que vos fala. Como o senhor bem sabe, meu tio era um homem estranho e que gostava de pregar peças e creio que também lhe pegou no contrapé.

– Como assim? – arregalou os olhos o comerciante – a que o senhor se refere? acaso desconfia da integridade de nossa empresa? Temos tradição, senhor! Afinal, o que deseja? E eu aqui, de boa-fé, dando o meu melhor em relações públicas.

– Eu conheci sua tradição, senhor. Junto com a carta estava o recibo de pagamento de serviços funerários de primeira classe, o filé da casa, como o senhor diz. Aqui está a cópia, dê uma boa olhada, com tudo especificado. Impossível existir duas empresas na mesma cidade com o nome “serviços póstumos”, não concorda? Pois deixe-me dizer-lhe que segui as instruções da carta. Ela só me foi entregue cinco anos depois para permitir a abertura da sepultura, de acordo com as normas, o senhor sabe como são essas coisas, evitar surpresas mais desagradáveis do que o esqueleto. Mas tive outro tipo de surpresa ao ver que o caixão não era o modelo americano, retangular, com a tampa abobadada, e sim um caixão de pinho trapezoidal de tampa plana, pintado de marrom degradeé. Aqui está detalhado, veja, um esquife modelo americano, etc. Meu tio detestava esses caixões com ombreiras, como ele chamava. Agora veja aqui, consta terno de linho branco, com sapatos e meias e titio estava com um simples casaco de viscose, uma calça maior do que o tamanho dele e, adivinhe…descalço. E observe bem esta ressalva aqui no recibo, titio tinha um relógio do qual não queria se separar nem depois de morto e não havia nenhum relógio na ossada, meu senhor.

O comerciante vacilou. Empalideceu e tentou justificar-se: – deve ter havido algum engano, um engano terrível senhor… isso não pode ser… o recibo é autêntico, não posso negar minha assinatura, ah, esses empregados desatentos, uma desgraça. Não, isso não passa de uma brincadeira de mau-gosto.

– Meu senhor, que brincadeira coisa nenhuma, o senhor é um pilantra.  O senhor foi convidado a comparecer ao velório porque fez um grande negócio com titio e para que pudesse contar essa história a todos que fizessem qualquer alusão, como acabou de acontecer. E sem dúvida, também, notou que a sua trambicagem foi omitida na carta lida pelo diácono, deliberadamente, sem dúvida.

– É absurdo… mas… – tentou articular o comerciante.

– Sem mas e sem menos – interrompeu o homem – por certo deve supor que toda a diligência no cemitério foi fotografada e acompanhada por testemunhas e um tabelião, que lavrou uma ata notarial detalhada. Aqui tenho a cópia, pode ler. Imagine agora o escândalo quando isso vier a público. Sua empresa não enterrará nem uma barata numa caixa de fósforos. É o seu fim, o senhor sabe bem disso e o jornalista que estava presente já tem a matéria pronta. Estelionato tem pena máxima de 04 anos, portanto, não está prescrito o crime, esse assunto vai dar o que falar durante muito tempo. Já consigo ver a denúncia. Seu nome e de sua família vão chafurdar na lama.

O comerciante quase desfaleceu, sentou-se, vencido, olhou suplicante para o homem e perguntou se não se podia chegar a um acordo, afinal com boa vontade tudo se resolvia, só para a morte não tinha remédio.  O homem pensou um pouco, enfiou a mão no paletó e de lá tirou a carta. Em seguida, respondeu:

– Veja, senhor, meu querido tio pensava em tudo e não gostava de ninguém. Estou desempregado há anos, sou a ovelha negra da família, aliás, nunca trabalhei. Sou um vagabundo e deserdado, senhor, mas titio gostava de mim, o que se há de fazer. Uma vez me disse que eu teria sucesso na vida.  E ele mesmo encontrou uma forma póstuma de resolver toda essa confusão.

– E qual seria? – perguntou  o comerciante acuado.

– Uma sociedade. Titio me garantiu que seu negócio é sólido, tradicional, bem estabelecido. Goza de excelente reputação, essa é boa, não? Titio também me garantiu que, diante das circunstâncias póstumas, o senhor não recusaria uma participação razoável de 20%, em ausência, é claro, mediante rigorosa prestação de contas. Como titio dizia, no fundo ele não passava de uma carcaça velha. Por que não ganhar uns cobres com ela, bastava um pequeno investimento inicial, no caso dele, o último, o que me diz… sócio?

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