O COVEIRO VALDEMAR

O COVEIRO VALDEMAR

Sobre o portão do cemitério da pequena cidade de Paraibuna, no noroeste do Ceará há uma inscrição talhada em madeira onde se lê revertere ad locum tuus e por baixo dela todo santo dia passava o coveiro Valdemar, que tinha uma certa antipatia por ela e não lhe dava mais atenção. Ninguém se lembrava de quem a tinha colocado ali, mas era muito antiga e conservada pelo clima seco do sertão e se desconhecia o seu significado, pois a região era muito pobre e mesmo o vernáculo era mal dominado. O coveiro Valdemar, que exercia o seu ofício naquele lugar há quase 50 anos, em tempos idos, teve vontade de retirá-la dali, pois de nada anunciar alguma coisa que ninguém consegue entender, ainda mais em latim. Ele sabia que quem mandara colocar aquela placa fora o padre jesuíta Irineu, de quem tinha muita lembrança de sua infância. Quando o padre morreu, o coveiro Valdemar cavou sua sepultura com grande esmero. Aprendeu o ofício com seu pai, que desde moço exercia a mesma atividade em várias localidades daquela região.  Cavou também a cova de seu pai e depois de tantos anos, sabia identificar de olhos fechados onde cada defunto estava enterrado. Tal era a sua boa fama que as famílias faziam questão que as covas de seus parentes fossem cavadas pelo coveiro Valdemar e ele, de fato, era um profissional de pá cheia. Não apenas fazia as escavações como conhecia as regras do seu ofício, tinha sua marca de 07 palmos para mostrar aos desconfiados, embora soubesse há muito tempo que a profundidade de uma cova ideal chegava na altura de seu pescoço. O buraco era feito no esquadro e ficava tão geométrico que que dava até vontade de se jogar dentro dele. As pessoas ficavam muito satisfeitas ao ver o caixão pousado ao lado daquela boca negra, onde desceria suave e sem trancos, como um elevador moderno. Essa era uma garantia que o coveiro Valdemar dava à clientela, nada de sobressaltos, folgas ou empenamentos numa hora tão decisiva e essa simetria e ajuste dava a impressão de que o defunto ficaria melhor acondicionado ali do que dentro o próprio caixão.

Aconteceu de um dia morrer um advogado que nascera no lugar mas havia tocado a vida na capital e havia dito aos amigos que desejava, no momento oportuno, ser enterrado no que ele dizia ser o seu “torrão natal”, talvez com receio de violações de seu túmulo, pois era sabido que não gostava de prestar contas aos constituintes e não eram poucas as ameaças legais e pouco legais que andava sofrendo nos últimos tempos. Assim, quando partiu deste mundo num atropelamento noturno sem testemunhas, seus sócios resolveram satisfazer sua última vontade.

Apenas alguns poucos familiares e seus dois sócios compareceram ao enterro, cuja cova foi encomendada ao coveiro Valdemar, como era esperado. Ao entrarem no cemitério, um dos sócios apontou para a placa, cutucou o outro e sorriu. Valdemar notou esse gesto e sua curiosidade se atiçou. Aproximou-se dos dois e perguntou:

– Bom dia, senhores. Notei que o cavalheiro apontou a inscrição e riu – disse ele dirigindo-se ao mais corpulento – Há décadas não vejo ninguém reparar nela…

 – Ora, meu bom coveiro – disse o advogado, notando a enorme pá em que se apoiava o coveiro Valdemar – Aquela é uma inscrição em latim muito verdadeira.

– E o cavalheiro sabe o que ela significa? – perguntou o coveiro.

– Claro, nós advogados temos que conhecer essas coisas, pois usamos nas nossas petições, não é colega?

– Sim,  respondeu o outro, mais magro e baixo, sorrindo também – é de lei, dura lex sed lex

– E o cavalheiro pode dizer o que significa? – insistiu o coveiro Valdemar.

– Claro, meu bom garimpeiro, quer dizer “volta ao lugar que te pertence”.

– Huum – resmungou o coveiro – o uso do verbo voltar até que serve, cavalheiro, mas o mais apropriado seria o verbo retornar, me parece. Mas o problema, não está aí, doutor, de fato não está aí. Antes fosse, porque uma palavra costuma ter vários sinônimos. Mas o cavalheiro há de convir que há uma diferença entre voltar e retornar, não acha?

Os advogados ficaram surpresos com aquela observação que consideraram impertinente e o corpulento resolveu divertir-se um pouco depois do sepultamento:

– Ora, colega, temos aqui um coveiro que parece entender mais do que apenas abrir buracos. Mas nós dois sabemos que tanto faz voltar ou retornar que vai dar tudo no mesmo lugar, não é mesmo?

O magro achou graça do trocadilho e completou: – no mesmo buraco, o nobre colega quer dizer, por certo.

E os dois caíram na risada e o coveiro também riu, mas disse:

– Sim, cavalheiros, o buraco é sempre o nosso ponto final, mas qualquer um pode voltar de qualquer lugar, por exemplo, pode voltar da privada para a sala, ou voltar porque esqueceu as chaves, mas apenas aquele que vai ao túmulo está retornando, os cavalheiros compreendem? Retornar tem um conteúdo de emoção, de reencontro, de retorno. É como morrer e falecer, há uma diferença, não há cavalheiros? O seu sócio, que acabei de cobrir com esta pá, na sua honorável opinião morreu ou faleceu? Ou como se diz por aí, esticou as canelas ou retornou ao Pai?

– Eu diria, caro escavocador, que a esta altura ele está apresentando seus memoriais, mas a que magistrado não arriscaria dizer – disse o causídico corpulento, fazendo com que o outro batesse nas pernas de tanto rir:

– Não é possível, hoje o colega está de morte, com o perdão da palavra.

O coveiro Valdemar não gostou do rumo que os dois advogados imprimiam à conversa e foi com uma ponta de decepção que falou baixinho, como se a frase lhe saísse boca afora por vontade própria: stultorum infinitus est numerus, o que surpreendeu os advogados, que não estavam preparados para aquele tipo de sofisticação e o primeiro começou a perder seu bom humor e desafiou o coveiro:

– Em primeiro lugar, como você, um coveiro – um bom coveiro, uma nobre profissão – sabe que o verbo ali em cima é retornar e não voltar? Por acaso estudou Latim?

– Cavalheiro, o verbo é retornar porque ali está escrito revertere, que é a única expressão apropriada naquela inscrição. Sim, cavalheiro, eu estudei latim, meu pai me obrigava – e isso, deixe ver, facies tempus, uns cinquenta anos – a apreender essa língua com o padre que era o patrão dele  e que colocou essa placa infeliz aí na entrada. Essas coisas ficam grudadas na cabeça da gente. Mas como eu dizia ao cavalheiro, o problema não é o verbo revertere, mas sim o pronome possessivo tuus. Está errado, cavalheiro, uma vergonha para o padre – coisa de jesuíta, sabe como é – mas quem sou eu para mexer nisso. No cemitério de Arapongas também colocaram uma placa em português, que parece um convite sinistro, mas não é. É apenas o memento mori: “Nós que aqui estamos, por vós esperamos.” Dá tudo no mesmo.  E o cavalheiro nem percebeu o problema do possessivo, é claro, pois se confundiu retornar com voltar…. É difícil, realmente, não é para qualquer um. Eu já pensei em tirar essa placa daí, mas há algo que também me agrada. Como os cavalheiros podem notar, a madeira foi escavada em baixo relevo, o que é muito pertinente para o propósito do lugar. Aqui, cavalheiros, só para o fundo.

– Ora, um sabichão aqui, colega – disse o corpulento, rebolando-se um pouco à moda do júri – Então és um tatu, explica qual é o mistério da inscrição, que nós burros da cidade grande não temos capacidade para entender essas enormidades.

– Pois não, cavalheiro, é sempre um prazer conversar com pessoas educadas e modestas. Tuus, cavalheiro, é masculino, e no latim há a forma neutra, tumm. Acredito que o senhor tenha uma perfeita noção de que para este pousio retornam os defuntos de ambos os sexos, não é mesmo? Desta forma, o correto seria “Revertere ad locum tuum”. E agora, se me desculpa, preciso reconhecer minhas ferramentas. Foi um prazer, finalmente, comentar esse assunto, depois de tantos anos. Passem bem, cavalheiros.

– Espero um pouco – disse o advogado –  se você é tão esperto e instruído, porque não tem um emprego melhor do que esse de coveiro?

– Ora, cavalheiro – respondeu o coveiro Valdemar  – minha profissão é necessária e tem sua própria ciência. Tenho grande apreço por ela. Por exemplo, o cavalheiro. Só de observá-lo, posso garantir que tem um esqueleto robusto debaixo dessas carnes macias. A cova há de aquecê-las, se é que me entende. E não acredite nessas histórias que se contam por aí de que é preciso esperar cinco anos para desenterrar um corpo. Seis meses são o bastante, sabendo fazer as coisas direitinho. Geralmente basta não colocar aquele véu sobre o defunto nos velórios e deixar as moscas depositarem bastante ovos e larvas. Os cadáveres para elas exalam um perfume irresistível. Garanto-lhe que assim deixando exposto o seu defunto para um enterro na última hora, quando o nariz já começa a escorrer, no primeiro mês o cadáver do cavalheiro vai inchar e ferver como uma buchada, mas em meio ano o cavalheiro terá produzido uma das mais belas ossadas que este cemitério já acolheu. É uma pena que o maxilar desencaixe e a caveira apareça desmontada, e o cavalheiro tem um sorriso tão largo, mas o que se há de fazer… dou-lhe minha palavra que a cova ficará mais justa do que esse seu paletó. Aliás, se me permite uma observação final, sempre sorrio quando abro um túmulo e vejo um esqueleto de gravata. É grotesco, cavalheiro. Passar bem e revertere.

Ao ouvir isso, o advogado recuou lívido e puxou o colega pela manga, que exclamou:

– Vá para o inferno

    – O inferno não existe, cavalheiro, apenas o pó.

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