ANDRADE OU DICIONÁRIO?

Sou do tempo em que se votava por escrito, como ainda acontece na maior parte do mundo civilizado. Meu título de eleitor era maior que um cartão postal e repleto de quadradinhos, onde eram registradas as minhas presenças em todas as eleições. Mais ou menos como um cartão de vacinação gigante. A apuração das eleições era um processo lento, que varava as madrugadas a cada pleito e era realizava em ginásios cobertos com as arquibancadas lotadas. A quadra ficava congestionada por mesários, candidatos, fiscais e delegados dos partidos políticos. Cada voto era apurado várias vezes, segundo a variedade dos cargos em disputa.

A diferença do sistema atual, contudo, já começava no dia da eleição: o eleitor que errasse seu voto podia pedir ao presidente da mesa uma outra cédula, rasgando a cédula inutilizada, algo impossível no voto eletrônico.

Na apuração, a função mais importante do juiz eleitoral era aproveitar ao máximo o voto válido, o que não era uma tarefa fácil, e isso exigia bastante atenção quando se tratava do voto do analfabeto ou semianalfabeto. Se as eleições de domingo se realizassem há alguns anos, se um eleitor escrevesse “Andrade” para presidente, esse voto seria consignado em favor de Haddad, por aproximação fonética, assim como o candidato “Dicionário” (como circula num vídeo do whatsapp) seria reconhecido, pelo mesmo critério, como destinado a Bolsonaro, especialmente se os demais votos, nas eleições proporcionais, se referissem a candidatos do mesmo partido deles.

Se houvesse dúvida, decidia o presidente da mesa e o delegado dos partidos eram avisados pelos fiscais e, conforme o caso, impugnava o voto. Aí, por uns instantes, paralisava-se o processo de escrutínio e a Junta Eleitoral, presidida pelo juiz de direito e  composta por alguns presidentes de mesa, deliberavam. Cabia ao delegado do partido registrar seu inconformismo imediato. O Secretário da Junta registrava o incidente na Ata e o voto era separado e envelopado para posterior decisão judicial, se fosse o caso.

O mesmo acontecia com os números. Um primeiro número confuso, digamos, um número 1, que também poderia ser um 2, não implicava na nulidade do voto. Iniciava-se verificando se havia algum partido que fosse identificado com aquele possível número. A partir dos números subsequentes, buscava-se a identificação da real intenção do eleitor com o registro de determinado candidato. Às vezes, a imprecisão envolvia até dois números, e mesmo assim, era possível aproveitar o voto. Quando os primeiros números eram reconhecíveis e os demais ilegíveis, o voto era transferido apenas para a legenda.

Havia um cuidado com o que se chamava de “voto marcado”, que era o voto válido, mas com uma espécie de sinal que pudesse identificar o eleitor, o que significava que o voto poderia ter sido “comprado”, por exemplo.  Essa marca retirava do voto sua característica secreta e inviolável. Nesses casos, era preciso bastante ponderação. Era comum que o “x” ficasse fora do quadrinho, ou uma linha fosse traçada debaixo do nome do candidato. Às vezes, o voto vinha acompanhado de uma palavra, digamos “vitória”, ou algo semelhante. No geral, essas situações não tornavam nulo o voto. Discutia-se e deliberava-se do mesmo modo.

Ouro aspecto peculiar e que exigia atenção era o de proibir que candidatos, delegados e fiscais de partidos usassem canetas azuis, que eram da cor daquelas fornecidas nas sessões de votação, justamente para evitar um rabisco acidental ou malicioso que pudesse alterar o voto do eleitor. Eles não podiam tocar as cédulas e nem se debruçarem sobre os mesários ou provocar discussões ou fazer provocações. As decisões que envolviam disciplina eram imediatas e severas, com a expulsão sumária do local de apuração, podendo o partido realizar a substituição.

A totalização dos resultados era feita com uma calculadora (!) e utilizavam-se os critérios legais dos quocientes eleitorais e partidários nas eleições proporcionais e a distribuição das sobras. Não havia erros e nem questionamentos, porque todos os partidos faziam os mesmos cálculos.

A cada vez que um resultado era totalizado por algum delegado de partido e relatado para a “torcida”, o ginásio explodia em gritos e assobios e agitar de bandeiras. Acontecia, às vezes, de o ginásio ser completamente esvaziado de público por esse motivo e muitos juízes sequer permitiam a entrada de pessoas estranhas, que se acumulavam do lado de fora durante toda a noite.

Todo esse processo varava a noite e não era raro que a apuração fosse interrompida e prosseguisse na manhã seguinte. Avaliava-se o que faltava apurar, via-se a disposição dos mesários e decidia-se prosseguir ou fazer uma pausa. Havia eleições que terminavam às 6 horas da manhã. No dia seguinte à apuração, sempre acontecia um almoço ou jantar de confraternização entre os mesários, geralmente um churrasco, oferecido por algum empresário. Isso fazia parte da tradição e era um modesto reconhecimento da sociedade pelo trabalho duro e gracioso realizado pelos seus cidadãos em prol  daquele evento democrático.

Lembro que na primeira eleição com voto impresso totalizado por computador, houve problemas em algumas cidades em Santa Catarina. Na minha comarca, o resultado para a câmara de vereadores apresentou um resultado polarizado de 6 vereadores eleitos por uma legenda e 3 por outra. No dia seguinte, procurou-me um ex-prefeito e advogado do município em questão e disse que o resultado estava errado e fez o cálculo numa folha de papel na minha frente. Vi que ele tinha razão. Três servidores chamados refizeram os cálculos ali mesmo, simultânea e separadamente e todos chegamos à conclusão de que o resultado correto era 5 x 4.  O servidor do TRE da região não soube explicar o ocorrido e decidi descartar o resultado inicial e homologar o novo, que cerca de uma semana depois, foi validado pelo Tribunal.

Não havia atividade mais cansativa e nem resultado mais seguro  e democrático do que uma eleição por voto impresso, embora o voto eletrônico, também garanta segurança, mas certamente,  é implacável com o eleitor.

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s