UMA CONVERSAÇÃO SANATORIAL

Dois juristas conversavam no pátio de um sanatório, onde tomavam o solzinho da manhã.

     – E o colega, como tem passado? Perguntou o hóspede mais antigo.

     – Objurgando, colega, objurgando, mas o asclépio não tem conhecido das minhas irresignações. Estou hígido, como o colega primu oculi afere, aliás, nem sei bem a razão pela qual vim transferido para este Areópago de lunáticos, pois me parece que todos são. Está certo que abusei um pouco do vernáculo, mas não é isso razão para medida compulsória tão extrema, temos aí aquele famoso esculápio, o doutor Gilmar, que não me deixa mentir. Sinto-me premido à judicialização.

     O primeiro fez algumas anotações num bloquinho que trazia consigo, guardou-o o respondeu:

     – Compreendo-o in totum, colega, e concedo que essas remoções padecem de insanabilidade ab ovo, embora eu não aprecie o subproduto galináceo em referência. Há de haver medidas alternativas menos gravosas, pois este Sodalício a mim tampouco se amolda. E, se lhe serve de arrimo, também não consigo derruir o convencimento asclépico, cuja expertise coloco sub censura, pois ao que me consta este é um tribunal privado e não tem o selo prestigioso da res pública. E…

       – Desculpe aparteá-lo, colega, mas o senhor colocou assento agudo na latina publica.

     – Erro escusável para mim, é o digitador inculto que me ensarilha. Mas como dizia, veja que na semana passada quiseram aplicar-me uma medicação epionésica, cuja tentativa  derruí portalmente, pois nem mesmo a profilaxia higeica fez o pensador. Além disso, pelo que fui informado, estou atualmente na fase meramente telesforense, nada mais.

     O outro inflamou-se:

     – Aportemos uma súplica, colega. Aí está o sapiente doutor Gilmar, que não se aconchava com ilações e, apensar de jurar a Hipócrates, usa a sobretoga da Carta Primaveril. Veja só o que tenho aqui no bolso, uma cópia de uma peça atrial interditória . Alegações írritas e desprovidas do fumus, que afrontam o meu direito deambulatorial. Urge-me a tutela, colega. Esta constrição é intolerável!

     Estavam os dois já falando com indignação a plenos pulmões, quando se aproximou um enfermeiro e lhes disse:

     – Será que os senhores poderiam mudar de assunto ou falar bem baixinho? Todos os outros loucos estão ficando agitados, e se a coisa fugir do controle eles podem fazer picadinho dos dois. Deem uma olhada, mas não encarem.

     Os dois juristas se entreolharam duplamente alarmados, pois a nenhum deles passou desapercebida a palavra “outros”.

     Então, o mais antigo observou:

     – A que ponto chegamos, colegas, o uso do adjetivo substantivo masculino… nem vou repetir, pois repugna-nos tal menção, quando temos o neutro e suave incapaz, não é mesmo? Mas o dedicado servidor ali nos inclui na classe, ou entendi mal?

     – Entendeu muito bem – enfatizou o mais jovem – e objurgo! Mas confesso que já cogitava do tópico em apreço, pois ontem tive acesso ao meu prontuário, ou dossiê, como o colega preferir, e ali vi a seguinte anotação, que guardei de memória: “Paciente sofrendo de juridiquite crônica severa, com recorrentes alucinações linguísticas, Comunicação familiar e social comprometidas. Prescrição: choques diários e banhos de água gelada durante 14 dias. Acrescentar remédios anti-delirantes. Prognóstico: pouco animador.”

     – Que horror, colega, tenho estremecimentos insupitáveis. “Choque” no lugar de “descargas elétricas”? “Banho de água gelada” ao invés de “imersões aquosas”? “Remédio”, quando  temos os “fármaco” ou “químico”? Que loucura, colega, e partindo de um esculápio licenciado. Realmente, é devolver a matéria ao juízo primevo. Objurge cautelarmente, colega, objurge.

     Nesse instante, entrou no pátio o psiquiatra do hospício, e com o devido tato de sua profissão, dirigiu-se à dupla:

     – Meninos, prontos para imergirem no álgido frescor de nossas águas e experienciar o frêmito das correntes galvânicas percorrendo vossas sutis epidermes?

     Ao ouvirem isso, os dois mudaram completamente de humor e deram pulinhos de alegria:

     – Finalmente, colega, alguém se expressa de forma inteligível nesta Corte. Será ótimo. Vamos.

     – Desobjurgo!

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