AS DUAS VIÚVAS

AS DUAS VIÚVAS

  A viúva chorava demais. Fazia tanto escândalo que parecia estar discutindo com a vizinha por causa do lixo na calçada e não no velório do “companheiro de toda uma vida”, que ela, verdade, seja dita, fazia tempo que considerava um lixo. Mas agora o homem estava morto e sossegado e não havia necessidade de tamanho escarcéu. Eram cerca de dez da noite e o velório ocorria dentro da pequena capelinha mortuária do próprio cemitério. A única iluminação disponível eram quatro compridas velas colocadas em pedestais em volta do caixão e os amigos e parentes espalhavam-se pelo pequeno quarto. A viúva não parava de gemer e lamentar-se. Duas outras viúvas, sentadas a um canto, trocavam olhares de desaprovação e uma delas cochichou à outra:  – Que show, amiga. Essa vai para o trono!

  Foi nesse momento que o defunto se ergueu no caixão. Desnecessário descrever o rebuliço que se seguiu, mas a outra viúva não pareceu impressionar-se e respondeu para si mesma, pois a sua companheira de luto já tinha se evaporado:

– Pronto, acordou o morto.

 De fato, o finado parecia estar acordando de uma sesta e como não tinha se dado conta do que se passava, tentou espreguiçar-se. Quando percebeu as mãos presas, esfregou os olhos e viu que estava dentro de um caixão, saltou para fora com a mesma agilidade de um rato que escapa de uma ratoeira. A viúva perdeu os sentidos e caiu no chão como um poste. Todos os presentes, como se fossem um único corpo, foram apinhar-se na semiobscuridade de um canto da sala, deixando do outro lado apenas o morto e sua viúva. Uma única vela havia sobrado na confusão e quando o morto levantou-se claudicando ao lado dela, o efeito aterrador da iluminação mais baixa sobre o seu rosto, aumentando as sombras grotescamente, levou o público ao paroxismo do horror. As mulheres quebravam as unhas tentando subir pelas paredes, outras levantavam os filhos no colo e os ofereciam ao morto, pedindo clemência e alguns homens puxaram as facas que ninguém suspeitaria que levavam escondidas nas costas. O tumulto era indescritível e todos estavam transidos de pavor. A única porta ficava próxima da cabeceira do caixão, e estava fora de cogitação tentar sair por ela. O morto estava tão desorientado quanto os vivos, mas quando viu o brilho das facas, estacou e tentou dizer alguma coisa, mas de sua boca saíram flocos de algodão, o que só serviu para acrescentar mais horror e gritos alucinados à cena. Quando o morto desvencilhou as mãos do lenço que as amarrava, os homens se abaixaram com uma atitude que só podia representar uma de duas coisas: ou a fuga desesperada ou o ataque. Enfim, nada que o morto fizesse poderia melhorar a sua posição perante aquela plateia.

              Então, a mesma viúva impassível deu uns passos à frente e encarou o morto:

– Seu Roberto, o senhor faça o favor, que isso não são horas para brincadeira. Seja sincero, e diga-me se o senhor está vivo ou morto.

 Essa pergunta aparentemente absurda, galvanizou toda a audiência. Cessaram os gritos, um silêncio absoluto tomou conta do recinto e todos olharam com uma expectativa insuportável para o defunto, que respondeu:

– Dona Zulmira, mas o que é isso? Eu estou vivo, quem está morto é o seu marido. Eu não sei muito bem o que se passou comigo, mas pelo que eu apreendi, morto não caminha e nem fala.

– Depende, seu Roberto, depende. O senhor vai me dar licença.

  E sem esperar resposta, rapidamente abriu sua bolsa e tirou dela o seu canivete automático; com um golpe de grande habilidade e precisão, cravou a lâmina com gosto no ombro do morto, que deu um grito e pulou para trás. Dona Zulmira foi em direção dele enquanto o homem recuava e aproximou o canivete da única vela acesa. Depois de ver o sangue vivo cobrindo o aço, ela, como suprema autoridade naquela congregação, declarou secamente, depois de limpar a peça na borda do caixão:

 – Está vivo – E com um click da mola, recolheu a lâmina, guardou a arma na sua bolsa e apertou solenemente a mão do homem.

 Um murmúrio de alívio percorreu toda a sala; os homens guardaram suas facas com um pouco de vergonha, as mulheres abaixaram as crianças e muitos saíram para tomar ar, encostando-se pelas paredes, por via das dúvidas. O defunto, já reabilitado, aos poucos, começou a ser abordado por alguns parentes e amigos e em pouco tempo o velho sentimento de camaradagem tinha retornado.  Embora alguns se atravessem a abraçar o senhor Roberto, a maioria guardava uma distância respeitosa. Ninguém sabia exatamente como abordar o assunto sem iniciar com alguma pergunta estapafúrdia e o consenso geral era que um médico devia ser chamado, o que alguém rapidamente se prontificou a fazer. 

Foi só depois de alguns minutos que alguém se deu conta de que a viúva estava desacordada no chão. Alguns acorreram para ela, tentando reanimá-la, sem sucesso, e um deles suspeitou que ela estivesse morta. Como não havia um local adequado para deixá-la mais confortável, decidiram instalá-la dentro do caixão do seu ex-viúvo, todos muito apreensivos com a iminência de que uma nova desgraça tivesse substituído a anterior. O senhor Roberto, ainda bastante desconcertado com tudo, foi levado até uma cadeira e ficou sob os cuidados de dona Zulmira e de alguns parentes, enquanto o grupo já começava a se reunir em volta do caixão.

 O médico enfim surgiu na capelinha e depois de dar uma olhada geral na situação, e um pouco confuso, dirigiu-se ao senhor Roberto e apresentou as suas condolências, que ele, sem muito tino, aceitou com naturalidade. Em seguida, sem perder tempo, foi até o caixão e depois de um rápido exame, ergueu a cabeça sem dirigir-se a ninguém em especial e protestou:

  – Mas que diabos está acontecendo aqui, afinal? Isto não é um homem, é uma mulher, e está morta como uma pedra. Podem prosseguir sem susto com o enterro. E por esse descaramento fúnebre, vocês podem ter certeza de que vou apresentar uma conta gorda.

            E sem dizer mais nada, deixou a sala.

            O senhor Roberto, então, perguntou:

           – Morta? Quem está morta?

 A situação era tão bizarra que ninguém conseguia responder e como ele começava a perguntar pela mulher, a valente viúva, mais uma vez, tomou a iniciativa:

 – Senhor Roberto, tenho uma notícia triste para lhe dar. A sua viúva, se é que o senhor me entende, bem, ela morreu e agora o viúvo é o senhor. É ela que está ali no seu caixão. 

 O senhor Roberto, tão fragilizado estava, que olhou no fundo dos olhos de dona Zulmira, que lhe retribuiu com a mesma intensidade, e enfim, compreendendo sem entender, caiu num sentido pranto, abraçando-se a ela. A viúva recebeu a sua cabeça no colo com um certo rubor que a obscuridade encobriu e passou a mão pela cabeça do pobre viúvo, que foi ficando e ficando assim abandonado naquele aconchego tão acolhedor. Durante toda a madrugada que se seguiu no velório da viúva, dona Zulmira se empenhou para que ele tivesse o melhor conforto que ela fosse capaz de fornecer.

2 comentários sobre “AS DUAS VIÚVAS

  1. Hélio, está muito louco este teu conto da viúva morta e do morto viúvo… Um enorme sarceiro, um grande rebuliço e completa confusão com inversões de papéis e atitudes desacomodadas. Tudo fruto de muita criatividade e muita inquietação…

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