RUI BARBOSA NO QUINTAL

RUI BARBOSA NO QUINTAL

Alguém que decidiu divertir-se à custa do juridiquês, inventou o seguinte incidente que tem como protagonista Rui Barbosa Segundo consta, o famoso jurista,  ao chegar a sua casa, ouviu um estranho barulho vindo do quintal. No local, o jurista encontrou um rapaz que tentava levar sua criação de patos. Ao se aproximar do ladrão, disse Rui Barbosa:

“Oh, bucéfalo anácrono. Não o interpelo pelo valor intrínseco dos bípedes palmípedes, mas, sim, pelo ato vil e sorrateiro de profanares o recôndido da minha habitação, levando meus ovíparos à sorrelfa e à socapa. Se fazes isso por necessidade, transijo; mas se é para zombares da minha elevada prosopopeia de cidadão digno e honrado, dar-te-ei com minha bengala fosfórica bem no alto da tua sinagoga, e o farei com tal ímpeto que te reduzirei à quinquagésima potência que o vulgo denomina nada.”

O sujeito, atordoado com o palavrório, teria perguntado:

“Sim, mas… levo os patos ou não?”

O que não se conhecia até hoje era a resposta do ladrão, que é dada à luz pela primeira vez:

“Doutíssimo polímata: Introitamente devo alinhavar que o vergastamento é açodado, e não faz a ingente distintiva entre o atrialismo perorativo e a percuciência do exame exauriente de meu modus agendi. Vossa magnitude exsurge ex abrupto com uma prolusão admoestatória de cariz injurioso, ao qual falece o suporte cognitivo-fático que desvela uma prenoção inquinativa. Ao depois, favorece-me com a isenção de penitência, invertendo, em idêntico átimo, cognição e execução. Ademais disso, de crescência, ajunta-me à azáfama de coimatar-me, o deslustre moral e a chancela da vis corporalis, que o amanho jurídico já derruiu com o sufrágio do novel estatuto repressor. Não lhe saciou a sanha carcerizadora atribuir-me a autoria da ofensa, que fez-se ingente a necessidade de igualizar a miséria com a nulificação ético-moral da personalidade dos malservidos? A mim me parece calhar à fiveleta essa precipitação com a vossa alegada – está nos jornais –  autoria intelectual da queima dos alfarrábios historiográficos da nossa infamante tradição escravocrata, que abjuro.

Urge-me, todavia, concluído o pródromo – e avise-me vossa excelência do tempo que me sobeja nesta tribuna muresca – levar ao monumental conhecimento de vossa magnificência, dada et concessa venia, que estais diante daquilo que os energúmenos iletrados de vossa triste profissão conhecem como “erro de fato”, e que eu, mais honoravelmente trato como serendipidade, pois não estou a rapinar tuas anas platyrhynchos, bem ao contrário, ao deambular por este logradouro, condoí-me com o estado famélico dos semoventes – triste designação, doutor Rui, pois semovemos todos nós – e trouxe-lhes verduras que sobejavam na feira, o que vem a constituir o conteúdo meritório deste fardo que às costas conduzo. Assim, vens com teu anteparo ambulatório prestes a afligir um agadanhador e encontras um  filantropista. Encontras-te, dessarte, no Reino de Serendip.  Arrebanhadas, de inopino, minhas efêmeras intelecções, encerro essa espartilhada síntese.”

Segundo consta, Rui Barbosa, sem tardança,  admitiu o benfeitor como fâmulo da posse, virou as costas, empoleirou-se em sua aquila realis e foi passar uma temporada em Haia.

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